A história de um anjo
30/07/2010 às 01h07
Essa bela história nos chegou por email.
É uma daquelas lições de vida que levamos para sempre no coração...
Uma senhora chamada Irena Sendler faleceu há dois anos (no dia 12 de maio de 2008), aos 98 anos de idade.
Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações.
Mas os seus sonhos iam além... Sabia quais eram os planos dos nazistas em relação aos judeus (mesmo sendo alemã)!
Irena levava crianças escondidas em caixas sujas de ferramentas e graxa na parte de trás da sua velha caminhoneta.
Também levava ali, atrás do dirigir a vida, um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazistas, quando entrava e saía do Gueto.
Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar daquele velho viralatas encobriria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer.
Enquanto conseguiu manter esse trabalho, retirou, sozinha, com Deus, cerca de 2500 crianças salvas dos horrores nazistas.
Por fim os nazistas descobriram e a prenderam. Na tortura partiram-lhe ambas as pernas, pés e a prenderam brutalmente...
Depois de terríveis sofrimentos, sobreviveu. E terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido, reuniu famílias destroçadas, cravou seu nome na história.
A maioria dos pais havia sido levada para as câmaras de gás.
Para aqueles que tinham perdido pais e mães, Irina ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adotivos.
Mesmo passados mais de 60 anos desde a guerra, Irina permanece forte e viva na memória de todo um povo.
Quando lembrarem desse ajo, rezem a Deus. Agradeçam por essa luz.
E faça parte da história do mundo, escreva a sua sendo um ser caridoso...
Joguei meu celular no Rio Potengi
22/06/2007 às 23h42
Sabe de uma coisa: estes estão sendo os melhores dias da minha vida. Tranqüilos, puro deleite. E com a chuva que cai – ah, que maravilha viver!
Resolvi desenterrar meu poeta preferido. Há dias leio, releio e declamo para o vento Arthur Rimbaud. Que rasgou a poesia no meio em plena França de 1872, colocando sexo vivo e sem nenhum pudor nas entrelinhas das suas rimas.
Como gosto da obra de Rimbaud: tão breve, nada leve e tão viva!
Mas isso é outra história...
Não sei quem danado me ensinou essas coisas: dar valor à chuva, à paz, ler poesias. Às vezes acredito que foi a vida: a gente vai vivendo, aprendendo, caminhando e cantando...
E os últimos dias de glória?
Tive uma raiva: sou de carne e osso, né? Aliás, muito mais carne do que osso...
Mas...
Tive uma raiva.
E o celular não dava sinal.
Estava vindo de um orfanato, na Zona Norte – o carro cheio de meninos e meninas à procura de vida e pais para passear por Natal, mil pessoas ligando ao mesmo tempo – e o bendito celular nada de completar as ligações.
Eu tentava.
Ligava, desligava, ligava de novo: e nada.
Aí respirei bem fundo e contei de um a cem: contar um, dois e três é quase nada para mim...
E depois do suspiro abri a janela do meu carro e, na maior naturalidade, adeus! Joguei meu celular da ponte de Igapó – eu acho que é esse o nome.
Foi uma sensação maravilhosa, acredite. De paz, tranqüilidade, um alííííííííívio...
Ah, a paz invadiu o meu coração...
Aí faz uma semana que estou sem celular: consegui, sobrevivi.
E estou pensando seriamente se vou querer esta praga-necessária novamente.
Mas que é uma maravilha viver fora do ar, ah, isso é!
O olho dele é atrás
14/06/2007 às 23h19
Vou falar. Nem queria. É, tenho evitado falar mal das pessoas. Aliás, nunca gostei tanto assim. Mooooooooooorro de medo da lei do retorno. Mas não me contive – que me perdoe o Espiritismo.
Estávamos, eu, meu coração que atende pelo nome de Keity e uma turma de amigos assistindo ao belíssimo show de Paulo Ricardo, Dia dos Namorados. O show? Amei! Adoro tudo o que me lembra o Rio de Janeiro, meus amigos, o Teatro Ipanema, o Circo Voador – enfim, minha turma!
Curti, cantei: foi tudo!
Mas de repente olho pro lado e vejo um cara assistindo ao show... de costas. Pode? E nem um ombro mexia. Nem um vento fazia. E fazia cara feia. E resmungava. Ai, ai: tem coisa pior do que gente assim? Assim, sem graça!
O show chegou ao fim e lá estava ele. De costas. À sua mesa, dois casais e uma pobre de Cristo que, presumi, era sua namorada. Tadinha.
E ele continuava de costas.
E continuava resmungando.
Aí começou a falar mal de Paulo Ricardo. “Não vejo graça nesse cara. Feio, magro. E canta muito ruim”, disse. Aí não me contive. Olhei pra ele e descobri, rapidinho, porque era tão mal humorado, tão chato, ranzinza – e porque estava de costas.
Vestia uma calça preta. De pregas, bem pastor evangélico de doze. E uma camisa de seda amarela-bofetada. E um sapato marrom, meias brancas. Dá para imaginar? É, tinha mais é que estar de costas. Quando riu, certo raro momento... viiiiiiiiiiiiiixe! Não tinha um dente! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Por que existe gente assim, hein?
Cafona por dentro.
Feia por dentro.
Mal humorada por dentro.
Claro que, no fundo, a roupa é o que menos importa... As cascas são as cascas e pronto.
Mas que coisa chata, uma criatura assim!
Passa na vida de costas para a própria vida. Não canta, nem seus males espanta. Passa a vida reclamando.
Fazer como minha amiga Vânia de Holanda Leite: “Vai ver os olhos dele são nas costas, coitado!”
É, e vai ver ele não tem uma amiga como Vânia.
E vai ver ele nem ouviu Paulo Ricardo terminar seu show cantando Imagine, de John Lennon.
Ainda bem que eu nasci de quina. E de frente pra lua!
Deus chegou cantando para mim
12/06/2007 às 00h02
Engraçado, isso.
Hoje fiquei pensando em como o espiritismo tem mudado a minha vida. Para melhor, claro!
Ando mais leve do que nunca, mais feliz do que nunca, mais tranqüilo, até, do que nunca.
A bem da verdade os assuntos do além sempre me interessaram... Mas ando mais engajado, mais apaixonado, mais dentro.
E isso tem me feito um bem enooooooooooooorme.
Claro que não tenho o menor pudor com nada. Vou e me atiro. E sou verdadeiro: por isso também TUDO dá certo para mim.
O interessante é a tolerância. Como tenho andado mais e mais.
Claro que é um exercício constante, plural, incansável. Mas vou remando. Contra a maré? Nunca! Minhas marés, sinto muito, sempre vão ao meu encontro. Eu sou um maremoto, meu coração um tsunami. Mas minhas marés são tranqüilas, morninhas e têm céus bem azuis.
Não me incomodo mais tanto assim. Deu, deu. Não deu? Tudo certo!
Foi? Ótimo! Não foi? Ótimo do mesmo jeito. Ah, que maravilha viver!
A minha pressa absurda em fazer tudo para ontem encontrou uma lombada. E eu tenho amado esses freios.
A vida fica mais mansa, assim.
E, vamos combinar: melhor.
O espiritismo – e toda e qualquer religião que se coloca fé sem nenhum pudor, redimensiona o tempo e o espaço da gente. E nos transforma numa pessoa. Aliás, melhor usar o artigo definido. Nos transforma na pessoa.
Que bom, que Deus chegou tão cedo para mim!
Tapete mágico
06/06/2007 às 18h31
Não me lembro de ter dormido um dia que seja na vida sem a sensação de dever cumprido. Ou que deixei algo por fazer. Ou com maldade no meu coração vagabundo. Minha relação com meu travesseiro cheirosinho e minha camona é de profundo deleite, imenso prazer. Nunca durmo com o que tem que fazer dobrado em meio aos lençóis, sempre cheirando a lavanda Johnson, meu cheirinho preferido.
E rezo. Rezo muito. Hoje um tantinho do Livro dos Espíritos, de Alan Cardek. E a paz invade o meu coração...
Aí durmo noite todinha – e sonho, sonho muito. Sonho colorido, levito entre a Atlântida, Mesopotâmia, a Terra de Vera Cruz. Não, não vou a qualquer mar.
Minhas noites são, sempre, tranqüilinhas, na paz. Mesmo quando durmo pouco, acordo em paz. Mau humor? Jamais: sempre acordei rindo, feliz por recomeçar, sentar à escrivaninha, escrever, escrever... Abusos deixo para outras horas... Meus prazeres são simples: aqui e acolá Debusy, meu preferido e um champanhe. Ou Cazuza, um Free longo, uma balinha de hortelã.
Adoro minha cama, meu deitar. Minha cama tem alma, faz ninar.
Minha cama tem amor, faz amar.
Minha cama, Aladim iria adorar!
Roda Gigante
31/05/2007 às 09h56
Me pega
Não nega
Se esfrega, se esfrega
Se larga
Se deixa
Se faz de heroína
Vira gueixa
Não queixa, menina
Que eu te tomo pra dança
Me lança
Minha lança
Perfumes, lança
Me faz uma trança
Requebra
Se quebra
Se faz de fingida
Tingida
Fugida
E me alvoroça
Se enrosca
Me enrosca
E me joga na lama
Carrega pra cama
Me estraçalha
Me espalha
Que eu não ligo pra nada
Tarada
Bruxaria
Caldeirão
Arranca a navalha meu vagabundo coração
E me deixa a água e a pão...
Se faz de sim
Se faz de não
Me atiça
Enfeitiça
Se faz razão, emoção
Morde meu calção
Frita
Cozinha
Banho-Maria quero não
Me inebria, meu amor
Me inebria
Arrepia a nuca
Aiiiiiiiiiiiiiiii, tesão
Me atenta
Agüenta
Pastilhas Garoto
Menta
Minta
Sinta
E me faz girar
Levitar
Me gira na roda
Me joga no fogo
Me queima as entranhas
Me assanha
Me assanha
Ai, ai...
E começa tudo de novo...
Um homem de verdade
28/05/2007 às 18h24
O final de semana foi o máximo!
Aliás, minha vida sempre é: fazer o quê?
Bem família, os dias desde a última quarta foram de festa. Nada tão incomum assim. Como diz ‘Damiana lá de casa’, eu não vivo: festejo.
Mas o assunto é outro.
Conheci, numa das festas do final de semana, uma dessas pessoas que faz a gente parar, bater palmas, se orgulhar da humanidade. Gente que faz da luta uma vida de vitórias e vence sem mentiras, falcatruas e outros deslizes, as ordens que Deus manda.
Francimar é um garçom nas horas vagas. E, também nas horas vagas é palhaço, animador e ainda tem um táxi. Não bastasse é um homem feliz, gentil, cheio de amabilidades, atencioso por demais.
Como uma pessoa dessas não deu certo na vida? Deu certo sim, venceu. O homem que tem um ‘mar’ no nome mata um monstro todo dia – e canta vitórias. Vai dormir certo do dever cumprido.
Na vida a gente tem mais é que ser assim: um batalhador. O mundo não suporta gente que fica parada, olhando os carros passar. O mundo gosta – e precisa, de gente que vai à luta, de gente com cara de gente.
Aos 34 anos de idade, Francimar, o palhaço-garçon-animador-taxista já virou, de cara, um dos meus super-heróis preferidos.
Eu adoro gente assim: que não tem hora, nem compromissos com o nada. João é um desses brasileiros desconhecidos – que não venceu roubando cofres públicos, certamente nunca andou com cuecas cheias de dólares, nem super-faturou obras e, se votou um dia no PT, faz como eu: nem lembra.
Lembrado ele é de correr atrás, de ir à luta, alimentar sua família, deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.
Isso sim é um homem de verdade: de quem o Brasil precisa para superar tantas injustiças, tantas políticas corruptas.
O que é felicidade, meu amor?
18/05/2007 às 19h34
Desde que me conheço por gente sinto-me assim: um homem feliz.
Amarguras, angústias, invejas, ódios, rancores, recalques: e outros caminhos bem íntimos de muita gente pela vida, nunca fizeram parte do meu coração.
Sou feliz e canto.
Também nunca tive grandes raivas. Aliás, meu coração vagabundo não tem nenhuma personalidade. Nem memória. E aí, feliz, vou esquecendo...
Aqui se faz, aqui se paga? Então deixo a vida pagar as dívidas dos outros.
E se tem uma coisa de que não abro mão é, no final do dia, antes de deitar-me, rezar. Aí agradeço, rezo novamente, amor, o friinho de um ar-condicionado sem barulho algum – e o travesseiro disposto a receber uma cabeça (e os sonhos) de um cara que leva a vida na boa, que rema contra marés – e vence tempestades. Que chora, que ri, que nada não às vezes.
Que passa os dias, perfeito que quer ser (ninguém é tão bacana assim), sem ferir ninguém, sem falar de ninguém – e esquecendo quem não merece, por exemplo, sequer um oi. É impressionante: esqueço o nome, o telefone, apago e pronto. Azar de quem perde minha amizade. Porque eu sou o máximo!
Ai, ai...
E quem não curte estar ao lado de uma pessoa feliz?
Quem?
Sou, também, um cara normal – como a vida de todos nós é.
Isso é uma benção de Deus.
E é motivo de muuuuuuuuuuuuuuuitas alegrias também.
O amor é azulzinho
15/05/2007 às 00h21
Quem me conhece sabe.
Tenho dois grandes medos na vida: de alma e de dentista.
O primeiro um dia a gente conversa – o segundo resolvi exorcizar.
Por que todos nós não nascemos com chapas, hein?
Tenho a menor vergonha: usaria uma “perereca”, na boca, numa boa.
Sofro, suo, sonho, até. Quer dizer: tenho pesadelos horríveis quando vou para o dentista!
Mas o tempo vai passando, a gente vai tratando – e uns medos somem, outros a gente nem lembra.
Por exemplo: quando eu era muito moleque morria de medo de ser atropelado por um caminhão de lixo, pode?
Mas era verdade! No Rio, onde morei por 20 anos – estudei, fiz e aconteci, não podia ver um caminhão de lixo que corria. Corria mesmo!
E também nunca tiver vergonha de dizer. Aliás, digo tudo. Tenho vontade e pei, buf.
A verdade é que eu tinha medo de ser atropelado, morrer e os garis me jogarem dentro do carro.
Ai, que horrível!
Adolescente tem cada uma...
Mas aí passou... Adoro caminhões de lixo limpando as ruas hoje em dia...
E, sabe de uma coisa, de dentista estou me resolvendo. Ou pelo menos vou dizendo que o medo já era, porque isso ajuda a passar.
Mas devo essa última vitória a Moema Medeiros. Uma dentista voz de mel, olhos feito as bilocas da minha infância, azulzinhos...
Doce, chega a cantar enquanto escacavia nosso sorriso. Afinada? O que importa?
Mas importa é que vai relaxando. E nem doer, dói.
Viva Moema, mais uma heroína da minha vida!
Chapas?
Quem sabe um dia.
Soluços
10/05/2007 às 19h28
Se é uma coisa que faço sem nenhum pudor é chorar.
Ah, como gosto de chorar! É como se lavasse por dentro, se limpasse desde a alma, sempre em estado de flores, à pele.
Chorar, desde ontem, tem sido a todo instante para mim. Vergonha? Nenhuma! Vergonha devem ter ou outros. Os homens que aprenderam que homem não chora. Eu não: choro. Choro. E choro.
O motivo dessa nascente dentro de mim é o Papa Bento XVI. O vejo na televisão, leio uma matéria na Internet – e sigo chorando. Vejo o Papa e me derreto.
Ta bom, eu sei: choro até com propaganda de sabão em pó...
Mas ver o Papa, velhinho, representando tanto amor, tanta fé, tanto Deus – e aqui, pertinho do coração da gente...
A emoção é um remédio para a alma. A boa emoção.
Não a que se vê por aí: de gente que faz fofoca, de inveja no coração, de ódio no meio de tudo. Eu, sinceramente, sei nem o que é.
Mas que assistir ao Papa é lindo, ah, isso é. É lindo ver um homem carregando tanta esperança. Velhinho, mas fortão, parrudo, dono do mundo.
Ah, eu sei: aborto, camisinha...
Isso é para os racionais. Também não concordo com o Papa – mas dogma é dogma. Cada um tem os seus.
Eu, que sempre adorei um bom drama (mesmo quando não é tão drama assim), sigo chorando.
Emocionado e com o coração imenso de tanta fé. E olha que sou espírita.
Mas meu coração cabe o mundo...
Que o Papa abençoe nosso Brasil.
E faça seu coração se emocionar também.
PAREDES EM BRRANCO A história de um país sem vida. Nem passado.
02/05/2007 às 20h58
Se tem uma coisa que adoro fazer com o meu amor é viajar.
Aliás, com o meu amor eu gosto de tudo. Até uma parede branca, ao lado dela, tem graça. E vida.
Chegamos há pouco de Morro de São Paulo, uma ilha linda por entre os mares baianos – dos mais belos lugares que a minha vista já alcançou...
Mas se por uma lado adoramos bater pernas pelo Brasil, descobrir seus cantinhos – e ‘encantões’, por outro é revoltante.
Não vou referir-me hoje às injustiças sociais (apesar de que, esta crônica, canta exatamente isso, caso pensemos um bocadinho...).
Mas vou cantar, em tom de revolta, o desleixo dos gestores públicos do Brasil com a nossa história, nossos concretos, nossas paredes nada brancas de emoção e de vida. De um passado não tão justo assim. Mas belo.
Em 2006 passamos mais de maravilhosos quinze dias nas Minas Gerais. Visitamos um sem fim de cidades históricas. Pegamos a Estrada Real e partimos em busca da lua.
Mas foi com o desleixo do poder público que nos deparamos.
Em Sabará, primeira cidade que visitamos, fomos, voando, ao encontro da Igreja de Nossa Senhora do Ó. Erguida em 1717 por escravos, a igrejinha, minúscula, esbarra na alma da gente assim que entramos. É um misto de emoção e Deus, de pavor e fé. Muito ouro, paredes inteiras talhadas...
E – tudo deteriorado.
Foi nas Minas Gerais que pela primeira vez percebi... Ora, bolas: se o político brasileiro sequer cuida de quem está vivo, que dirá dos mortos! Político, geralmente, não é afeito a histórias. A imensa maioria deles prefere contar as suas: demagogas, paupérrimas, injustas. E, vamos combinar: burrinhas demais.
Em Ouro Preto, Mariana, Tiradentes: em todo lugar a mão do homem do passado e a burrice política do presente. Conservar a história, para que, se sequer presente o povo brasileiro tem?
Em Salvador, ontem, outra dor: a Igreja de São Francisco de Assis, meu preferido, enterrada em infiltrações e abandono em pleno Pelourinho.
A Igreja de São Francisco, construída no século XVIII, é uma das mais ricas do Brasil sendo a mais exuberante de Salvador. Alguns a consideram o mais belo exemplar do barroco português no mundo. E ainda fica em frente a rua Gregório de Matos, meu poeta barroco preferido...
A São Francisco de Assis tem um interior todo recoberto em ouro e jacarandá com talhas retratando anjos, animais e flores. É grandiosa, onipresente, majestosa.
Existem inúmeros Painéis de Azulejos, em tons de azul, na entrada do templo, no Altar e na Sacristia, retratando cenas alusivas a São Francisco de Assis — seu nascimento e renúncia aos bens materiais, trabalhos pintados por Bartolomou Antunes de Jesus, um dos grandes mestres da azulejaria de Portugal. Um dos maiores artistas do mundo de todos os tempos e... mais uma vez o abandono.
Azulejos cobertos por gazes, telhados descascados, móveis servindo de depósito para lixo, esculturas jogadas aos cantos sem nenhum cuidado, nenhum tratamento.
Até a fé trava. E nem rezar se consegue. É tudo tão absurdo que, parece, até Deus some.
MORRO DE SÃO PAULO
Uma ilha exuberantemente bela localizada ao sul de Salvador, na Ilha de Tinharé. Foi lá que mergulhamos de coração na Vila do Morro de São Paulo, um pedacinho do paraíso perdido na terra. A areia branca e a água esverdeada ajudam a compor o cenário. É proibido entrar de veículos na Ilha, o principal meio de locomoção são os próprios pés. No fim da tarde é possível observar o espetáculo dos golfinhos em alguns pontos do Morro.
Aí vem a dor...
Erguido em 1630, o Forte foi construído para proteger a região da entrada de esquadras inimigas. Em 1728 foi ampliada pelo Conde de Sabugosa. É um dos mais belos lugares para se ver o pôr do sol e o espetáculo dos golfinhos, que nadam nas proximidades.
Mas o forte está em ruínas. Ru-í-nas.
Parece com nada – muito menos que ali, a história do Brasil também começou a ser escrita...
Esse é o nosso país.
De tantos políticos que poderiam desenhar suas histórias com sabedoria, heróis do mundo.
Mas não. Gastão com corrupção, mensalão, histórias em vão. São políticos de paredes brancas.
E sem nenhuma história.
Os docinhos que dançam no Morro
27/04/2007 às 22h37
Estou em Morro de São Paulo, uma ilha linda, astral feito a Pipa, a Canoa Quebrada dos Anos’80s.
A duas horas de lancha, de Salvador, Morro de São Paulo é um dos lugares mais lindos que meu coração já enxergou na vida.
Interessante esses cantinhos do Brasil. Cada um com a sua particularidade, a sua história – e quanta história!, as suas gentes, os seus gingados. Baiano não anda: dança, requebra...
Estamos todos em estado de graça: que lugar lindo, realmente!
É o Brasil da forma mais parecida com o Brasil: feliz, apesar de tamanhas adversidades.
Acabamos de conhecer Wagner. Um menino todo simpatia, olhos brilhando feito bilocas verdes, que vende docinhos: mesclados, brigadeiros, cajuzinhos... essas delicinhas que mais parecem festa infantil.
Estávamos jantando num restaurante francês – com um nome brasileiríssimo, Ponto de Encontro, que fica na Rua Caminho da Praia. Que nome mais lúdico! Ah... se essa rua, se essa rua fosse minha...
E Wagner, com ‘tuperware’ branquinho, tampa azul, um paninho de prato cobrindo os doces, para não serenar...
Ele passou uma, duas, voltou, passou novamente.
Aí nós o chamamos.
E conversa vai, conversa vem...
Wagner, que vestia uma camiseta azul, com a palavra amor em letras imensas, tem nove anos, é arrimo de família. E faz os docinhos que vende: que coisa linda! Como aprendeu? Ele não pestaneja: “foi a precisão!”
Cada um a 50 centavos. E vende trinta, cinqüenta. E apura vinte e cinco reais por noite, depois das tardes no colégio municipal da cidade, o Castro Alves.
Mas com um sorriso e um brilho no olhar que parece ganhar milhões por mês. E ganha, certamente, em forma de vida, de Deus.
Bem, cheguei onde queria.
Deus!
Num lugar lindo e mágico como esse, só podia mesmo ter encontrado um menino de nome Wagner, que vende docinhos, sustenta a mãe doentinha e dois irmãos mais novos, de 3 e 5 anos e carrega, no balanço do olhar, a certeza de que Deus existe.
E certamente passa uns finais de semana em Morro de São Paulo.
Maria, um orfanato e um lugar além do horizonte
12/04/2007 às 16h28
Conheci, há um ano, em um dos orfanatos de Natal que meu coração faz morada, uma menina de nove anos. Vou chamá-la de Maria.
Franzina, magrinha, uma voz quase imperceptível, olhos grandes sem nada a dizer. Há dois anos foi abandonada pela mãe numa manhã chuvosa, antes do Natal de 2005. Dias antes, contou-me a responsável pela casa de tantos abandonos. E de tantas dores.
O que faz uma mulher jogar no mundo um presente de Deus? E tão pertinho do Natal?
Sei não.
Na vida, muitas vezes, não sei de nada.
Sinto, apenas. E isso basta.
Maria, desde então, pouco anda, pouco fala, pouco vê. Sim, até a visão, com a dor do abandono, foi afetada. Maria não tem ânimo para, sequer, assistir a um programa na televisão.
E no seu coração tudo dói muito.
Outro dia fomos dar uma volta, como faço vez ou outra. Pela praia, shopping, depois um lanche no MC Donald’s. É uma festa! Para todas as crianças é uma festa: para Maria, não.
Por tudo ela chora.
Cada mulher que aparece na nossa frente Maria lança o olhar como se fosse encontrar, naquele exato momento, sua mãe. É incrível – e como dói. Eu invento uma situação, conto uma história engraçada: mas cadê o riso?
- Meu Deus, cadê a vida?
“Tio, cadê minha mãe? Por que ela não gosta de mim? Por que agente daqui não tem pai nem mãe?”.
Como é difícil viver assim: mundo triste, esse nosso!
E o que responder?
Por mais criativo que eu seja, nessas horas meu mundo desaba. Pouca coisa na vida faz meu mundo desabar: essa faz.
Mas eu reviro em minha volta. Pelo avesso consigo reverter. Que por segundos sejam. Já é uma vitória.
Mas Maria está alheia a tudo isso. Talvez nem viva aqui...
Não vive, realmente.
Segunda-feira fomos andar. Passamos muito tempo andando, conversando: eu, seis crianças à sorte da vida.
Quando chegamos no orfanato Maria teve uma surpresa: um casal entrou com um processo de adoção para dar-lhe aquilo que tão novinha perdeu: pai, mãe, uma casinha.
Pela primeira vez na minha vida vi Maria sorrir. Um riso escancarado, do tamanho do mundo. Os olhos, mesmo sem enxergar tanto assim, sorriram também. Foi uma das maiores e mais verdadeiras alegrias da minha vida.
Hoje pela manhã fui ao orfanato: Maria era outra criança. Me abraçou muito, deu beijinho e disse umas coisas que quis dividir com vocês.
“Vou ter um pai e uma mãe. Vou ter também uma irmã: Luiza. E vou me tratar da minha saúde. Sabe de uma coisa, tio, acho que vou conhecer a felicidade que tanto o senhor dizia, que um dia, ia aparecer. Acho que apareceu!”
Tão menina e tão vivida... Tão menina e com um repertório tão vasto, tão casto.
Nove anos de idade – e uma dor do tamanho da vida, disposta a se transformar em esperança.
Graças a Deus!
Trago boas novas
08/04/2007 às 20h05
Sempre digo por aí...
Que só leio aquilo que me acrescenta coisas boas, o que me faz feliz, o que dignifica o homem. Nem e-mails que me chegam: se a primeira frase não for lá tão interessante assim, não leio. E desde moleque costumo agir dessa forma. Se a primeira impressão é a que fica, para mim a primeira frase é, se não a mais importante, a mais marcante certamente. E consigo não ter curiosidade nenhuma em favor do mau. Não leio e ponto.
Só olho para o bom da vida – por isso também tudo dá certo para mim e com certeza é por postar-me dessa forma que nunca recebi uma cartinha anônima que fosse. Nunca!
Não tenho amizade com gente má – só falo com pessoas do bem. Nem “bom dias” gasto. É, tenho muitos defeitos: sou radical, fazer o quê?
Claro que me engano (raramente). Mas aí esqueço, apago o telefone da agenda do celular e enterro sem mandar uma coroa de flores que seja.
Não gosto de quem não olha no olho, ao conversar, de gente que não faz caridade, não suporto pessoas que maltratam animais e não me convidem jamais para programinhas como vaquejadas, rodeios, mesas de bar rodeadas de futilidade e gente “malpronta”. Ah, tenho abuso de gente burra, pela metade também não gosto de gentes. E dos preguiçosos sinto uma peninha...
Mas outro dia, ouviu um espírita (adoro os espíritas!) falar uma coisa linda: “Nós temos que ser o ponto final da maudade” – esse é o meu lema também há anos.
O que significa?
Que nós, jamais, devemos propagar notícias ruins, espalhar maudades por aí.
Temos que ser o ponto final da malvadeza... – o que é muito fácil.
E olha que tem um montão de gente por aí que adora espalhar maudades. Você ouve se quiser: mas não passa adiante.
Isso é um exercício diário, um exercício de bondade para com o outro e para com a sua vida também. Um exercício de boníssima energia. Quem espalha coisas ruins, atrai o pior do mundo.
Quem espalha as boas novas, recebe, diariamente, um abraço de Deus.
Amor até morrer
29/03/2007 às 22h16
Por favor!
Ando cansado de doer a dor alheia. De chorar o mundo alheio. Mundo cruel, esse nosso. Crudelíssimo, aliás. Todo dia morre gente no Iraque, todo dia a Aids avança na África e... Acredite: a Unaids, agência da ONU encarregada de gerenciar o combate à doença, estima que o número de pessoas que têm o vírus esteja próximo de 39,5 milhões, e que a vasta maioria desconhece estar infectada. Deus: e ainda tem gente fazendo guerra – e não amor?!
Pobre Rio de Janeiro.
No embalo, até a ficção virou realidade. É muita maldade!
Ontem, assistindo à minissérie Amazônia, da Rede Globo, resolvi dar um tempo. Vou mergulhar no Disney Chanel, na Ilha de Caras, ler Mônica e Cebolinha – e as poesias de Cora Coralina.
“Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor”
Não agüento mais: nós sofremos na real, sofremos na ficção. Depois das ‘Páginas da Vida’ onde até uma mãe é queimada na frente da filha dentro de um ônibus, sei não: acho que nem a ficção tem mais jeito não.
Sim, Amazônia.
A cena trouxe uma mocinha sendo estuprada na frente de uma avó doente. Quanta crueldade!
Decididamente, cansei.
Será possível? Porque a ficção invade tanto tão maldoso espaço que deveria ser, por que não, mais lúdico?
É hora de repensar. Sofrer por George W Bush basta.
Eu quero amor.
Amor até morrer.
Uma linda história de amor
25/03/2007 às 22h39
Tenho adorado rever Parati, uma cidade linda e encantadora, na novela bacaníssima de Gilberto Braga, Paraíso Tropical. Parati é a única cidade brasileira que respeita sua história, viva desde o século XVI. Cidade cheia de arte, casarios antiqüíssimos, ruas de pedras...
E trago no repertório da minha vida, uma história de amor que rolou entre mim e amigos meus, em Parati, lá por julho de 1991.
Morava no Rio de Janeiro, estudava no Colégio de Belas Artes, pertinho da Central do Brasil.
Fazia parte de “Os Intocáveis”, nove rapazes que zoavam muito, curtiam muito, badalavam muito, viajavam muito, namoravam muito – e tomavam uns porres aqui e acolá.
Ai, como era bom!
Não, não sou lá tão afeito às nostalgias da vida.
Mas me lembrei de um final de semana inesquecível para todos nós, Os Intocáveis.
Estávamos todos em Parati, na linda casa do tios Gustavo Azeredo de Mourão e Sophia, pais do Gustavo. Conseguimos, pela primeira vez na vida, viajar para Parati sozinhos. Apenas os meus amigos, nossas namoradas – e uma vontade imensa de viver e cantar.
Claro que, em casa, as menias mentiram um pouquinho, dizendo que os pais iam, que os avós do Gustavo iam...
Essas coisas. Mentiras perdoáveis, eu achava.
Fomos eu e Raquel, Gustavo e Nanda, Kadu e Patrícia, Léo e Andréa, Renato e Kelly. Só a gente!
Lá, à beira da praia, fizemos uma festa. Só a gente e os dois filhos de uma moradora da casa, uma velhinha chamada Maria João das Virgens, que havia perdido o marido de câncer, numa época em que eu não ouvia falar tanto de câncer assim... Eu a amava tanto... Adorava ouvir suas histórias...
Walter e Pedro Luiz eram os nomes dos meninos. Dois rapazes da nossa idade, bem legais, que estudaram e se tornaram homens "de bem", como diriam meus avós: um é gerente de um banco internacional em São Paulo, o outro casou com uma sueca que conheceu em Parati e mora em Londres.
Adorei saber disso ontem, quando Gustavo me ligou.
Tia João (era assim que a chamávamos) faleceu faz três anos. Foi cuidar dos seus filhos lá do céu... Ah, como meu coração sentiu...
Bem, mas essa história tem outro rumo.
Estávamos na festinha. Quase todos já bêbados, dançando muito Kid Abelha, Lulu Santos e, claro, Cazuza. Sempre amei Cazuza! "Exagerado", naturalmente, já havia tocado umas dez vezes. Era a minha exigência.
De repente Nanda para de dançar. Vi de longe. Discutiu discretamente com Gustavo, começou a chorar. E chorou muito. Pedi para Raquel ir conversar com Nanda, levei Gustavo para o deck, fomos dar uma volta de lancha.
E paramos pertinho da costa. Desde sempre morro de medo de alma. E apesar de Gustavo saber “navegar”, ainda assim tinha medo. Dizem que no mar existe ainda mais alma.
Gustavo chorou muito. Quase não consegue ligar a lancha. Chorou um choro estranho – até porque, dos nossos amigos, era o mais machão. E homem não chora. Ou chorava menos ainda. Conversamos até quase o dia amanhecer e aquele nascer do sol foi, se não o mais bonito, o mais inesquecível certamente.
Nanda estava grávida.
Chegamos em casa e todos dormiam. Era coisa de seis da manhã. Como o barco estava perto da costa, a turma não se preocupou tanto assim. Eles nos viam, nós também.
Foi uma noite difícil. Gustavo e Nanda namoravam fazia quatro meses. Ele tinha 16, ela completaria 14 no mês seguinte, agosto, dia 29. Virginiana, nossa Nanda.
Para contar para tio Gustavo, sempre muito austero, foi um drama. Passamos uns vinte dias para termos coragem. Não tivemos, mas fomos. Como sempre fui o melhor amigo dos meus amigos, estava em todas as horas. Nas boas, nas não tão boas assim. Gustavo insistiu para que eu fosse. E eu fui.
Chegamos ao escritório do tio Gustavo, pai de Gugah (chamávamos assim, com o “h” por causa de uma namorada astral dele, que se chamava Hellen e adorava numerologia. O “h” foi idéia dela), no final do expediente de uma sexta-feira. Nunca dê notícias bombásticas numa segunda. Não combina.
Gugah começou logo a chorar. Eu segurei a onda. E falei. Falei tudo.
Tio Gustavo ficou branco, olhão azul saltou à face, colocou a mão na cabeça, abraçou o filho.
No outro dia foram conversar com os pais de Nanda, que moram até hoje no Recreio dos Bandeirantes. Àquela época um bairro quase inabitável, depois da Barra, numa viagem que levou uma eternidade, certamente.
Raquel e Patrícia, combinei com elas, chegaram à tarde na casa da Nanda. Como quem não queriam nada, querendo. Sei lá. Fiquei com medo de alguma reação, fiz as meninas inventarem um lanche lá. Isso deixou Nanda mais confiante...
Mas foi outro drama.
Quer dizer: um drama pior.
Claro: dois meninos...
E Nanda com 13 anos...
Mas se entenderam. Gugah foi morar na casa de Nanda no dia seguinte. Fizemos, juntos, a mudança.
Meu namoro com Raquel acabou tempos depois. Hoje ela mora no Maranhão, virou fazendeira. Nos falamos vez por outra. Adoro conversar com ela!
Kadu não casou com Patrícia. Casou com Loise, tem dois filhos lindos, moram na Austrália.
Patrícia casou três vezes. Sempre foi muito “bipolar” (ela vai me matar...) Mas não dá certo, por muito tempo, com um cara só. Trabalha na Petrobras, no Rio de Janeiro. Adora namorar, é divertida e, como eu, acha o máximo mandar!
Léo casou com Silvinha, tem um hotel na Barra da Tijuca e três locadoras de veículos no Rio. Os dois são pais de seis filhos. São os mais corajosos dos meus amigos!
Andréa mora em Roma. Trabalha num hotel. Sempre muito fechada, fala conosco uma vez na vida. Azar dela.
Renato e Kelly tiveram um namoro mais longo, mas se separaram também. Renato mora em BH, Kelly na Virgínia, nos EUA. Os dois estão felizes, mas divorciados.
Gugah e Nanda? Estão juntos até hoje. São apaixonados como naquela noite em Parati. O amor dos dois é, para mim, um dos dois lindos que conheci na vida.
Os dois se casaram quando Gugah tinha 22 anos, na Igreja de Santa Rita, em Parati. Todos nós, "Os Intocáveis", fomos padrinhos dos noivos.
Nanda teve outros três filhos. Inclusive, casou grávida de sete meses.
Vivem super bem em São Paulo. Ele advogado, ela neurocirurgiã.
O menino, que nasceu no Rio àquela época, é meu afilhado e da Raquel também. E se chama Chrystian. Tal e qual meu nome.
Me chama de tio e é doido para passar umas férias aqui em casa.
Não vejo a hora.
Ta vendo? Os caminhos da vida quem sabe é a vida.
E às vezes, Deus até se mete.
No caso de Gustavo e Nanda, ele se meteu. E muito!
- O que é o máximo!
As flores de Brígida Galvão de Saboya
23/03/2007 às 08h50
Herdei muitos hábitos da minha família. Da arrumação dos pratos à mesa, ao guarda-roupas: primeiro os tons claros, até chegar nos mais escuros, e o preto por final. A forma como se arruma a despensa, o que é escrito nos chaveiros de cada porta da minha casa.
Como acredito que energia (boa ou má) te leva para caminhos múltiplos, acabei, na minha Lua de Mel, em plena Patagônia, achando uma lojinha com descansos de talheres idênticos àqueles usados por minha bisavó, Brígida Galvão de Saboya.
Um descanso de estanho, com duas folhas de parreira nas extremidades. Comprei todos e encomendei outros tantos.
Lembro-me que fiquei emocionado naquele dia muito frio, neve chegando à nossa vista.
Minha Bisavó morreu aos 74 anos de idade. Era uma mulher linda, que conheci nos primeiros anos da minha vida e jamais esqueci. Tinha sempre, até doentinha, um penteado elegante, usava pérolas chiquérrimas e vestidos confeccionados especialmente para ela por Madame D’Souvanair, uma estilista que ficava na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Cabelo branquinho, voz muuuuito tranqüila...
Sempre ouvi muitas histórias dos Saboya. Aliás, adoro histórias.
Uma vez minha “Tiazinha” Maura Galvão de Saboya me contou que “Bivó” comprava flores, todas as quintas-feiras, para a sua casa. Isso em Mossoró, lá pelos Anos 50, 60.
As flores vinham de Fortaleza, onde o carro da família ia toda semana fazer compras.
E fiquei com aquilo na cabeça... Engraçado como a gente coloca umas coisas na cabeça, às vezes.
Quando morava no Rio minha mãe sempre comprava flores para nosso apartamento. Amava aquele ritual.
E hoje repito. Tal e qual. Toda quinta-feira vou a floricultura Mil Pétalas, que tem flores lindas e perfumadas – as mais belas do mundo.
Coloco flores desde o lavabo do meu apartamento, na sala, meu quarto, meu banheiro.
O cheiro é inacreditavelmente agradável, faz a casa inteira dançar.
É uma forma, acredito, de atrair boas energias para perto de mim...
É uma forma de perpetuar o nome dos Saboya e de homenagear minha “Bivó”.
Aliás, sempre penso nela nesse momento.
Flores, acredite, canta nossa vida de amor, esperança e vida.
Transforme seus caminhos em jardins. Nem que seja uma vez ou outra...
"O bebê de Rosemary" está vivo
05/03/2007 às 08h29
Houve um tempo em minha vida em que eu adorava filmes de terror. Era adolescente – e, vamos combinar: que adolescente tem medo do que? Sempre fui da turma dos destemidos, dos curiosos, do vai atrás...
De Stanley Kubrick ao japonês Takashi Shimizu – dois dos meus ídolos da época em que acreditava: ah, isso tudo é ficção!
Era tão vidrado em filmes de terror que assisti ao “Iluminado” ainda menino-véi.
Medo? Nenhum.
Mas as coisas mudam, a vida gira – e hoje, o que lamento profundamente, os filmes de terror se transformaram em realidade nua crua e até amena, diante do que se vê no Rio de Janeiro, em São Paulo, no mundo.
Matar nos tempos modernos é cena mais cruel do que os filmes do Jason. Poltergeist, Bruxas de Blair, Carie, a Estranha, O Bebê de Rosemary ou o Exorcista viraram filmes tão menores diante da violência da vida... que a vida, sinceramente, perdeu a graça.
Decidi então, de um tempo para cá, dar um basta em determinadas televisões. Não assisto a novelas violentas, que mãe pega fogo na frente do filho, que filho bate em mãe. Nada de telejornais sensacionalistas, nem tampouco filmes onde se atira, se mata, se estupra.
Decidi “alienar-me”. E estou adorando essa idéia.
Novelas, quando assisto, são as de Walcyr Carrasco, sempre inocente, instigante, inteligente.
Programas do tipo água com açúcar, desenhos animados – e, meu canal preferido, Disney Channel.
Não suporto mais tanta dor no mundo, tanta guerra, tanta vida que se encera.
Quero felicidade, sossego e amor ao meu redor.
Descobri esse caminho. E estou adorando.
Contramão
27/02/2007 às 15h16
Tem coisa na vida pior não!
Não suporto mentira. Nem mentirosos.
Quem mente tem o caráter torto, a vida escusa, os olhos no além. Quem mente não merece nada, que não uma vidinha qualquer. Sabe de uma coisa: odeio mentiras!
Sou tão verdadeiro que por vezes me estrago, estrago os outros: mas prefiro ser assim a mentir. Não, não: isso não é autenticidade. E verdadeirices...
Prefiro assim, decididamente.
Quem mente, comigo, não dura. Até aturo, mas não dura. Um dia toda casa cai, um dia toda árvore cai, um dia todo mentiroso cai.
Quem mente, já dizia vozinha, rouba. É verdade: mentira está, sempre, muito perto disso. Por isso esqueça as pessoas que não são verdadeiras, que dizem uma coisa, fazem outra... Que quando conversa com você faz tudo, menos olhar no seu olho. E quando titubeia e olha, não vê.
Esqueça, por favor. Os que mentem não saem do canto, só se envolvem com gente medíocre, são pobres de vida e de alma – que é o mais importante.
Sei que muitas pessoas assim, no mundo, ao nosso redor, fazem morada. Mas sabe de uma coisa? Essas pessoas passam. E, sinceramente, não vão longe. Ou, como diz minha amiga Vânia Leite: “Quem mente caminha para trás!”
Não, não estou revoltado, muito pelo contrário.
Estou feliz, absurdamente feliz.
Mas tive vontade, hoje, de escrever sobre a mentira – só isso.
É uma espécie de recado para quem, como eu, não quer fazer par com quem volta, de costas, para o passado.
E mente tanto que esquece de ser.
Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Odeio mentiras!
Os Mandamentos d’Os Intocáveis
25/02/2007 às 10h21
Estava, ontem à tardinha, conversando com Kadu Tuma, amigo do Rio de Janeiro desde moleque, quando, sem ver nem porque, começamos a falar n’Os Intocáveis. Passamos, pelo menos, uma hora e foi-se ao telefone...
Os Intocáveis era o nome da nossa turma: nove meninos, mais tarde nove adolescentes, hoje nove homens. Andávamos para todos os lugares do Rio juntos, aí pela década de 1980. Viajávamos juntos e até nossas namoradas eram amigas umas das outras. Acabou que virou uma grande família... Foram, sem favores (e são até hoje) os amigos da minha vida. Vez por outra nos encontramos – pelo menos de dois em dois anos, no Rio, em três dias de festa, nostalgia e abraços sem fim. Com suas respectivas mulheres e filhos, para Natal já vieram algumas vezes – quer dizer, menos Leonardo, que casa todo ano. Decorar os nomes das namoradas do Léo sempre foi tarefa complicadíssima. Quando nos acostumávamos com Renata, ela aparecia com Paula – e por aí vai.
Kadu me lembrou uma lista que uma vez fiz sobre amigos e necessidades. Rimos muito sobre tudo e sobre essa tal lista, então...
A lista era o seguinte: “o que é necessário ter para ser meu amigo...”
Escrevi isso com uns 15 anos – e, ao telefone ontem, resolvemos, a quatro mãos, reescrever.
Para você ver que, naquela época eu já era “insuportável”.
PARA SEM MEU AMIGO
• Tem que conversar olhando no olho.
• Tem que ser verdadeiro: quem mente vale muito pouco na vida. E a vida, sempre, lhe responde, lhe descobre, arranca máscaras.
• Tem que ser grato. Não esquecer de gestos anteriores. Os ingratos são, sempre, pessoas péssimas.
• Tem que ser chique. Chique no trato, chique na educação: tem coisa mais uó do que gentinha?
• Tem que gostar das Noites Cariocas, no Morro da Urca.
• Não pode curtir drogas. Nenhuma. Sou careta!
• Tem que viajar para Angra pelo menos 5 vezes ao ano. Claro, para a ilha dos tio Mide e Francisco Gonçalves de Tolledo;
• Tem que ser leal: leal no coração. Leal desde o coração. Nada de detonar por trás, falar besteiras por aí.
• É preciso conversar sobre tudo. As coisas boas, as coisas ruins, cara a cara.
• Nenhum preconceito. Ser negro é ser Brasil, é ter raiz, é ser história.
• Não chame as namoradas do Leonardo pelo nome. Certamente você não vai conseguir decorar e vai acabar trocando.
• Tenha uma mochila sempre a postos. A qualquer momento posso inventar uma saída, um bate pernas por aí.
• Tem que ser honesto!
• E por último, reze para eu não abusar você. Seja interessante. Você sabe: gente mais ou menos eu sempre abuso. E esqueço logo logo o telefone, o nome, quem é...
Só sinto inveja do vôo do urubu
15/02/2007 às 18h50
Que palavrinha mais sem graça, essa: inveja.
Vamos combinar: já viu alguém na vida que, com muita inveja no traçado conseguiu chegar em algum lugar? Inveja é retrocesso, é caminhar para trás – é fazer da vida um emaranhado de energias ruins.
Quem sente inveja morre todo dia um bocadinho.
Sem ver, nem porque, fiquei pensando em como fui apresentado à inveja...
Foi numa festa que fiz na fazenda de um tio querido, Rútilo Coelho, em Mossoró. “Mossoró, meu amor” foi inspirada em 1830 e no Romantismo enquanto movimento cultural e social. Um colunista chegou, perguntou se ali tinha umas 300 pessoas e, quando respondi que havia 800, seus olhos brilharam o brilho mais opaco que vi na vida.
Além de invejoso, péssimo matemático. Ai, ai...
Claro que, naquela noite, quando vi a inveja tão próxima a mim, não me dei conta. Fiquei pensando, apenas, no que aquele colunista se transformaria. Mas também não dei o menor cabimento. Sorri, saí.
O colunista continuou indo às minhas festas, contando meus convidados que, a cada ano, aumentam.
Fazer o que? Nasci pra brilhar.
Aliás, todos nasceram.
Mas uns brilham, outros ficam de olho na vida do outro. E não caminham. O tal colunista? Nunca mais ouvi falar...
Ontem, por elogiar um outro colunista, um colega seu caiu em fúria. Pobres colunistas, esses. Claro que sorrateiramente, como agem os covardes – e os invejosos. Mandou e-mail tomando satisfação: pode? Pode sim! A inveja tudo pode. É como o amor, mas segue o caminho inverso.
Inveja de uma nota?
Meu Deus, como as pessoas são pequeninas!
Desde sempre decidi que, na minha vida, faço o que quero, ando com quem quero, sou eu e pronto. Mas me sustento, me suporto e, pode acreditar: como trabalho! Tanto que nunca quis ser outro que não eu mesmo. Nunca quis ser outro colunista, por exemplo. Venci (e venço todos os dias), porque trabalho.
Não me dou contra do outro, do trabalho do outro, do que o outro escreveu. Aliás, nesse meio, tem gente que não leio há anos. Não me interessa, simplesmente. E pronto.
Inveja? Nunca na minha vida. De nada!
Ah, lembrei-me de algo que realmente faz-me morrer de inveja: existe coisa mais linda na vida do que o vôo do urubu? Não voa, baila no ar. É o mais lindo das aves, é o vôo mais introspectivo, até.
Pronto: disso tenho inveja sim. Somente.
Talvez por isso também tenha chegado tão perto do céu.