Patrick Swayze, uma menina na Lagoa, a vida e o mundo de Deus
14/09/2009 às 21h40
Ah, me bateu uma tristeza...
Estava lendo o The Sun, agora pela web...
E de repente a notícia de que o ator norte americano Patrick Swayze, que está em fase terminal, lutando ferozmente contra um câncer no pâncreas, foi fotografado no Aeroporto de Van Nuys, em Los Angeles, embarcando em seu jato particular com a mulher Lisa Niemi e seu poodle, rumo a seu rancho no Novo México, onde ele estaria pretendendo passar seus últimos dias cercado de beleza e serenidade.
Magrinho, uma aparência triste demais... Swayze, perdão, Deus, não deveria, sei lá, passar por tanto sofrimento...
Na semana passada, Swayze não compareceu ao hospital Cedars-Sinai, onde recebia quimioterapia semanalmente, confirmando os boatos de que teria abandonado o tratamento por causa de seus efeitos graves colaterais.
Suas dores são tantas, que por vezes chora, diz uma outra matéria, no The New York Times.
Fiquei aqui pensando, cantando feito Cazuza: "Porque que a vida é assim?".
Assim sei lá como, que come, consome, mata por dentro.
Nossos ídolos, meu desde as matinês no Leblon, quando assisti Patrick Swayze pela primeira vez, em "Matador de Aluguel", não deveria desencarnar assim.
O espiritismo diz que o sofrimento purifica a alma.
Mas Patrick, que já fez tanta gente feliz com seus filmes, deveria, quem sabe, ter a alma purificadinha...
Por razões como essa, temos que pensar antes de pegar uma briga, de nos desentendermos com o mundo, de atirarmos pedras.
Aprendi desde muito jovem a não julgar.
E de um tempo pra cá ando mesmo tranquilão – e com o passar dos anos, mais manso, eu acho.
A receita é jogar para longe os ebós da vida, não espalhar notícias ruins, nem enviar e-mails meio assim, deixar de dar cabimento a gente traíra, pela metade, invejosa, fraca d’alma.
Para elas... preces. E adeus.
Para o mundo... rezas, sem fim. E caridade, amor, amor, amor.
Outro dia, passando pela Lagoa Rodrigo de Freitas, uma menina, lindinha, pedia esmolas num daqueles sinais insuportáveis do meu amado Rio de Janeiro, com uma camiseta sujinha no que um dia foi, talvez, um tom amarelado...
”Quero viver cem anos!”
Imagine só. Ela, ali pobrinha, querendo viver cem anos... mesmo no meio de uma guerra civil, encravada na injustiça social do mundo.
Imagine Patrick Swayze, que tão feliz fez tantos mundo a fora.
Imagine eu, pobre mortal...
Perdão, Deus.
Mas acho que tem gente no mundo que deveria, pelo menos, beijar a eternidade.
Qual o melhor remédio para vômito?
13/09/2009 às 18h12
Descobri isso antes de ontem, quando cheguei, cansadíssimo em casa, depois de mais dois grandes sucessos: o coquetel da Cia do Mármore e o festão de 10 anos da Ponta do Sol.
Deitado, zapiei na televisão.
E percebi, de vez, que a imensa maioria dos políticos desse país de tanta malandragem me causam náusea. Que gentinha!
Há muito o assunto não me interessa – e quando assisto à TV, mais asco me causa, ainda.
E se os jornalistas trazem as notícias de Brasília, da Câmara dos Deputados, do Senado – passo mal.
Aí deixei de assistir.
Simplesmente por que sou bacana demais - ou me acho - para "me misturar" com qualquer um.
De verdade. Cansei dessa gentalha sem caráter, desses senhores donos do mundo e de toda verdade digo que, sinceramente, não os agüento mais.
CANSEI!
Resolvi ser “alienado”, passar um tempo assim.
Cansei de tanta mentira, tantos conchavos, tantas tramóias, tanta maldade.
Maldade sim.
Tais senhores, tais políticos, não sabem o que é não ter uma casinha para morar, a fome que bate feito oco quando o dia finda, um filho doente, na pedra fria de um hospital.
São hipócritas, demagogos, doentes, sem Deus.
Claro, suas exceções existem.
Mas estão cada vez mais distantes do real. Parecem, sei lá, uma tela de Matisse – não denegrindo meu preferido e indecifrável artista plástico.
Mas estou adorando ser alienado.
Assistir a novelas, ler meus livros todos, reler tantos, pasear sob a brisa da vida que sopra.
Discutir ideias, não gentes.
Discutir o mundo, as artes, “Caminho das Índias”, até.
E me preparar para "Viver a vida", do sempre ótimo Manoel Carlos.
Mas certos políticos... tô fora.
O Brasil virou um celeiro dessa gentinha.
E como gentinha é gente pela metade - e como gente pela metade não me interessa em absoluto...
Tô fora!
Melhor assim!
Um dia atrás do outro
31/08/2009 às 18h45
Passei um tanto da tarde hoje, num orfanato.
Tem que ser um leão, pedra no coração para andar nesses lugares onde parece que Deus pouco vai – apesar de estar presente em cada choro, em cada riso.
Orfanatos são, para mim, uma dor com começo, meio e fim.
Fim para uns, outros não. A dor continua nua.
E latente.
E errante.
Mas hoje, lá, encontrei duas vezes quatro irmãos. Resolvi rir, então.
Ah, Deus, se abandonar um filho já é um oco que corre na vida, imagine abandonar quatro?
Hoje existe uma lei que obriga uma única família a adotar todos os irmãos de sangue, jogados ao mundo sabe lá por quais motivos.
Sejam dois, três, ou no caso de Pedro, Hugo, Cícero e Taninha... os quatro.
Claro! Se já dói não ter pai e mãe – e todos os outros elos da vida, perder irmãos, como outrora se fazia, é outra dor tacanha, tamanha, daquelas que fura, tora as entranhas.
Aí, das oito crianças, divididas em dois grupos de quatro irmão...
Quatro estão a caminho de um lar.
Casa, comida, roupinha cheirando a Confort, quarto para sonhar, um bichinho de estimação, sei lá.
O que toda criança deveria ter ao passear pela vida...
Hoje, lá, dezoito me olhavam com aquele olhar pidão.
De que “quer ser meu pai?”.
Ou... “O senhor veio me buscar?”.
São olhares que atravessam você pela alma, dessas crianças.
Levei Terezinha e Maria do Socorro, brincamos um pouquinho, fiz o que tinha que fazer e sai de lá rezando a Deus.
E agradecendo por aqueles quatro irmãos terem encontrado uma família abençoada, que quer os quatro seus filhos.
E isso, minha gente, é lindo!
É gratificante.
E dá uma vontade imensa de comemorar aniversário, como hoje, mais cem vezes nessa vida.
E... procure um desses lugares. Que são muitos espalhados pelo mundo de meu Deus.
Orfanatos, abrigos, institutos, casa de animais abandonados.
A vida, ali, sempre precisa de assopros, afagos, amor.
Parte o mais terno sorriso da minha infância
12/08/2009 às 07h52
Quando passava minhas férias em Mossoró, quase trinta anos atrás, na casa dos meus “avós” Maura e Nestor Galvão de Saboya e Wilda Ferreira Marques...
Era com Paccelli e Ângelo Gurgel que corria pela Avenida Rio Branco, a caça de vida, de sonhos e, quem sabe, de um mundo que estava por vir...
Ângelo foi, ele, principalmente, meu querido amigo da época de moleque...
Nos separamos pela vida – ele seguiu seu caminho; eu o meu; a vida o dela.
Mas sempre nos víamos, aqui e acolá nos falávamos.
Ele encarnou Madonna, escandalizou Mossoró 25 anos atrás e, numa mega produção, nunca vista até hoje na cidade, fez o chão de Santa Luzia tremer todinho com sua arte ousada, sexual, transgressora.
Muitos não entenderam. Outros amaram. E eu fiquei ao seu lado.
Depois Ângelo virou Michael Jackson.
Outro escândalo, outra performance inacreditável.
E no costurar da sua vida – e da minha também – estava sua mãe.
Uma doce e terna senhora chamada Dione...
E foi com a voz embargada que Ângelo me ligou, ontem, quase meia noite.
Chorava um tanto, um choro de dor, de alicerce que parte e se vai.
Dione, a quem sempre chamei de Tia Dione... havia voado para o céu.
Uma vida de sofrimentos, um sorriso sempre lindo, uma voz sempre cantante.
Ah, como queria bem a minha Tia Dione.
Sempre tão fofa, tão minha, uma torcedora de todas as minhas paisagens.
Meu mundo caiu, meu choro lá vem.
Aos 69 anos de idade, tão boazinha, tão fofa...
E de repente o fim.
Vá entender o mundo, os desígnos de Deus, né?
Parei tudo na minha vida.
Estou viajando para Mossoró.
A última vez que falei com minha tia Dione foi para ela chorar baixinho, no meu ouvidinho... e agradecer um texto, lindo, não tenho pudor em dizer, sobre Ângelo e sua escandalosa Madonna, sucesso 25 anos atrás, revividos aqui, em Paz de Chrystian.
Agradeceu, se emocionou e falamos no tal amor...
Depois ela ligou quando Valentina nasceu.
E falou tantas lindezas...
E choramos juntos, quietinhos.
A morta da minha tia abriu um ocão no meu coração.
Deu uma saudade tão grande que...
Ah, perdi a vontade de escrever também.
Meu amor, ser de luz, por toda vida.
E até um dia...
Pra gente chorar de amor mais umas vezes...
Uma cesta básica, dor do mundo e um cara cheio de frescura
09/08/2009 às 19h46
Comigo acontece muito isso.
Uma consciência que pesa, que culpa, que dói por dentro.
E angustia.
Aconteceu outro dia.
Estávamos eu e dois amigos.
Um lanche no fim do dia, as resenhas sobre as famílias, as vidas, os suspiros de cada um.
Do outro lado da rua passava um jovem. Dois, aliás. Mas um, em especial, me chamou a atenção.
Franzino, bermuda surrada, camisa de botão. Tão magro que se contava costelas, espiava “os olhão”.
E um chinelo velho qualquer, que “torou” duas vezes e ele, rindo, ajeitava.
Nas mãos uma cesta básica – e na alma um dos maiores sorrisos que já vi na vida.
De repente ele começou a erguer a feira. E a beijá-la.
E de novo. E mais uma vez.
Do outro lado da Campos Sales eu ouvia... “Maravilha!”... “Deus seja louvado!”.
A gente ali, num “lanchinho de fim de tarde” que deveria ser algo em torno de cento e muitos reais...
E um irmão caminhando, cantando e louvando a Deus por causa de uma cesta básica de 30 reais, ou coisa assim.
Como vivemos num mundo discrepante, não?
Vivemos no antagonismo da vida, na contramão e nem percebemos – ou não queremos perceber.
Aquilo ali matou minha fome – que sempre é imensa.
E fechou meu dia.
Deu uma dor...
Um sei lá de sentir...
Enquanto em Brasília – e em quase todo lugar nestes Brasis – políticos roubam tanto, envergonham tanto, tanto nada fazem... o povo brasileiro segue a míngua, a margem da vida, tão cúmplice da fome.
Fiquei mal, àquela tarde.
Não por mim, que sempre ralo tanto e canalizo minhas energias todas para meu ofício e talvez por isso devesse me portar melhor, diante da miséria, minha amiga faz tempo...
Mas pelo mundo, que não vê, não olha, nem liga.
Ou pelos meus dois amigos.
Que ao verem meus olhos cheios de piedade e água soltaram essa...
“Saboya, deixa de frescura!”.
É frescura não – e vontade de um mundo melhor.
Pratodo mundo.
Nosso coração ganhou nome
10/07/2009 às 17h47
Vou, aos poucos, voltando à vida.
E a vida vem linda, aos braços meus.
Valentina, a vida que chega, joga a vida pelos ares, inversos, contrários caminhos.
Ah, felicidade, essa grande que me segue.
Que me segue desde sempre, que chega cor de rosa, pesando quase três quilos e trezentos, com 50 centímetros de muito amor.
QUINTA, 7 de Julho, seis horas da manhã
Acordamos seis da manhã, àquele dia.
Keity, primeiro, com a bolsa rompida.
Em seguida, Terezinha, nossa poodle que, desde a gravidez do meu amor “me abandonou” para dedicar-se mais à mãe. Para onde Keity ia – e vai – Terezinha a seguia - e segue - linda, preocupada, impressionante.
Em seguida, acordei-me, com a movimentação das duas no quarto.
E Maria do Socorro, nossa poodle cazula, seguiu dormindo até irmos à casa da nossa ginecologista, Celeste (não deveria ter outro nome, realmente) Menezes. E a bolsa havia rompido.
E, com tudo organizado há dois meses, fomos fazer outras coisas...
E Keity foi fazer uma escova. Pode?
Eu liguei para minha mãe, minha sogra, Vânia Leite e Sandra Elali – as quatro avós de Valentina, para nos acudirem.
E coisa de dez horas, fomos para maternidade.
A última imagem que me veio a alma foi o olhar de Terezinha, preocupada, com carinha de quem gostaria de, sei lá, ver a irmã nascendo.
E todos aqueles ritos.
Eu, acreditem se quiser, o homem mais tranquilo do mundo.
Peguei minha máquina, agarrei-me ao doce coração do meu amor e fomos os três para a sala de cirurgia - depois, é claro, de arumar o quarto, docinhos Anna & Claudia, dois grandes amores, flores poucas, até a cortina mudei - acreditem.
Lá, segui tranquilo. Nem nós, a garganta, se faziam presentes à vida, àquele momento.
E eu, que choro até com propaganda de sabão em pó, nem aí. Calmo, seguro, pronto pra vida, à luta.
Poucas lágrimas, coração em festa.
Ah, não queria que Valentina me visse chorando – o que pensaria do pai, pensei. E ri.
A abracei com um sorriso n’alma, daqueles que tomam conta do mundo.
Quatro horas da tarde nossa Valentina já estava na suíte A da Promater.
Linda!
Nasceu com o nariz antipático do pai, com a doçura e mansidão da mãe.
E perfeita, oh Deus!
Na loucura de providenciar tudo, esqueci de tudo. E de todos.
E Carla Cantídio ligou, chateada que só.
O leite demorou a chegar, outra preocupação natural de pais e filhos recém nascidos.
A bem da verdade, o leite ainda está demorando...
Mas virá, Deus já cochichou no meu ouvido.
Na Promater, apenas a família apareceu. E amigos bem íntimos, que souberam de outros poucos.
Passamos dias inacreditáveis ali.
Valentina, que puxou a mãe nesse aspecto, é um anjo. Dormiu tempo todinho, flor de gente e vida.
Em casa, aonde chegamos, tudo lindo, à espera da nossa menina.
E um cheirinho de bebê correndo a vida, que responde rindo.
É como se o mundo se resumisse a esses momentos. E assim segue, nossa vida.
Feliz...
Agradecer, aqui, a todos os nossos amigos. Todos.
Por tanto carinho, cartões indos, desejos de tudo na vida de bom...
E agradecer a Deus, sempre tão cúmplice meu e de Keity, por mais esse presente na nossa vida.
O sono dos anjos
06/07/2009 às 16h37
Ando meio sem prumo com essa história de ser pai.
A vida toda “arrumadinha”, faltava sentir esse caos – no melhor dos sentidos, claro, caindo sobre nossas vidas!
Ah, e como tudo já mudou...
O apartamento todo mudado, novos sentires, outras alegrias infindas.
Eu e Keity pelo mundo. E no mundo fomos onde quisemos ir, paramos onde estávamos afim de sentir.
Mas faz três anos, após cinco de casamento, que decidimos engravidar.
E deu certo.
E Valentina está chegando por esses dias e, melhor: no melhor ano da minha vida, das nossas vidas!
Mas que ando meio trôpego, ah isso é verdade.
O juízo, que nunca foi lá essas coisas, está pior.
E antes de ontem meu amor sentiu umas dores horríveis.
Madruga, imaginem o aperreio.
E ligamos para “nossa” ginecologista.
Com aquela calma toda de quem conhece o mundo, Celeste Menezes mandou tomar Dactil OB, um comprimido que inibe contrações uterinas.
E para cozinha, pegar o comprimido, eu fui, ainda trêmulo.
E com um pedaço voltei para o quarto.
E...
- Meu amor, cadê o comprimido?
- O comprimido?!
- Sim! Você não foi buscar o comprimido?!
- Fui... Mas eu esqueci... e tomei!
- Tomou???!!!
- Foi sem querer. Estava tão assustado, que tomei o comprimido... E agora, o que vai acontecer comigo?
Aí voltei para pegar o comprimido para Keity.
E o comprimido deu certo para mim, para Keity, para as duas cachorrinhas e para Valentina.
Dormimos os cinco, calminhos.
Uma quarta-feira qualquer
24/06/2009 às 20h54
Não foi fácil atravessar essa quarta-feira, 24 de junho de 2009.
E por razões tão simples, será inesquecível para mim.
Como faço todas as quartas-feiras, fui ao Centro de Caridade São Francisco de Assis, em Ceará Mirim. E passei a tarde lá, entre crianças e cachorros abandonados.
E, melhor ainda, entre as boas energias do mundo.
E como faço todas as quartas-feiras...
Antes do Centro vou à casa de três crianças adoráveis, que vou chamar aqui de Zetinho, Juju e Loninho.
Os três têm um pai que, perdão, Deus, melhor seria não tê-lo.
Bêbado, alterna seu pobre comportamento entre brigas e agressões à mãe dos meninos e, por maldade, deixa faltar comida para toda a família.
A mãe, uma pobre coitada, perdeu o juízo do mundo, vive sem noção, ao vento, coração de pedra de tanto sofridão.
E sem comida, às esmolas da vida, eles vão levando seu fardo.
Três crianças que amo já faz tempo, que me pedem “abença, tio Cristo!” e que se jogam em meus braços todas as vezes que as encontro.
Hoje fui levar umas roupinhas usadas, presentes de amigos meus; bolo, cachorro quente e refrigerante. Foi o nosso São João. Ali mesmo, sentados os quatro à beira do caminho, rindo de nada, experimentando roupas usadas e comendo nosso lanche entre cachorros que chegavam, moscas e restos de chuva.
E, quer saber: senti-me, mais uma vez, nos céus.
Chique, meu caro, é isso: a vida crua, posta a sua frente sem máscaras.
E como a miséria, sempre tão íntima minha, me faz melhor a cada dia!
De repente Loninho se ajoelha no chão. Tomei um susto!
- Que foi, Loninho?
- Tô rezando, pedindo a Deus que o sinhô nunca abandone nóis!
No chão fui eu, àquele momento. Como se uma tora de madeira me atravessasse a alma desde os olhos, estupefatos, ali.
Me arrasei sem saber que o pior estava por vir.
- Tio Cristo, o sinhô pudia adotar nóis! Levá nóis pra morá mais o sinhô! Não quero mais morá aqui!
Ouvir isso, em qualquer circunstância da vida, dói uma dor sem fim. Mas ouvir isso de um menino de sete anos de idade dói além, aquém, outrora, até. Dois de volta, indo, vindo, como dói!
Convidei os outros dois para uma prece. E rezamos juntos. Foi assim, pedindo socorro a Deus, que consegui responder a Loninho.
E pedimos a Deus por paz, por comida, por uma vida melhor – coisa que toda criança deveria ter, mas não tem.
Nossos políticos roubam, são, na sua infinda maioria, uns ignorantes da vida, os debochados com o mundo.
São caricatos, ladrões, qualquer coisa.
Certamente não viram, nem jamais irão ver aquelas três pobres crianças de Ceará Mirim. E outras tantos a mingua, ao fim.
Nosso São João durou uma hora. Foi uma festa!
- Mas confesso a você: saí arrasado com tudo!
No Centro, ali ao lado, um alívio. Lembra de “Azulzinho”, o cachorro abandonado que jogaram água fervente e que por pouco não morreu? Estava no Centro São Francisco até hoje e...
Está de casa nova!
- Obrigado, meu Deus!
Mais um filho de Deus com um lar... Menos um cachorro abandonado... E logo ele, que sofreu tanto.
Hoje era o São João das nossas crianças do Centro.
Brinquei um bocado, soltei bombas, rolei no chão entre cachorros e bebês. Uma festa!
O lanche, presente de Renata Motta, de outros amigos também. E docinhos lindos de dois amores, Anna & Claudia.
Tudo tão bonito...
E chorei de novo. Tanta criança, meu Deus, atrás de um prumo, um rumo para a vida. E a vida... hum... cadê?
E nós ali, os voluntários... tão pouquinho nós fazemos... e tanta alegria criamos...
Deixei o Centro muito, muito sujo. Fedia a cachorro.
E a camiseta branca virou um molambo.
E me lembrei no meio do caminho que tinha reunião na Maxmeio.
E fui daquele jeito mesmo, desfigurado, escutando um CD de músicas Irlandesas, presente da minha amiga-poetisa Vivi Viana.
Flávio Sales e todos os amigos dali tomaram um susto.
Eu, feio, pode?
Estava. Horrível, por sinal.
E muito, muito sujo.
O novo site me foi apresentado hoje: lindo, moderníssimo – é... não tem quem pegue a gente! E muito menos a Maxmeio!
Estrearemos dia primeiro de agosto!
Aff!
Quantas mudanças na minha vida!
Um novo Jornal, o de Hoje, uma festa, dia primeiro, o site novo, um apartamento novo (finalmente ficou pronto) e... uma filha.
Quero Valentina com uma qualidade, que seja.
Que nasça solidária.
Abusada como o pai até pode – mas que lute, mesmo que com a força de uma formiguinha, por um mundo melhor para todos nós.
Cansei, hoje.
Foi um dia de emoções fortes – de dores fortes.
Tantas, que perdia força.
Vou dormir.
E sonhar que valeu a pena...
Que vale a pena viver.
Lição de vida
17/06/2009 às 16h12
Aí um dia você toma um avião para Paris, a lazer ou a trabalho, em um vôo da Air France, em que a comida e a bebida têm a obrigação de oferecer a melhor experiência gastronômica de bordo do mundo, e o avião mergulha para a morte no meio do Oceano Atlântico. Sem que você perceba, ou possa fazer qualquer coisa a respeito, sua vida acabou. Numa bola de fogo ou nos 4 000 metros de água congelante abaixo de você naquele mar sem fim. Você que tinha acabado de conseguir dormir na poltrona ou de colocar os fones de ouvido para assistir ao primeiro filme da noite ou de saborear uma segunda taça de vinho tinto com o cobertorzinho do avião sobre os joelhos. Talvez você tenha tido tempo de ter a consciência do fim, de que tudo terminava ali. Talvez você nem tenha tido a chance de se dar conta disso. Fim.
Tudo que ia pela sua cabeça desaparece do mundo sem deixar vestígios. Como se jamais tivesse existido.. Seus planos de trocar de emprego ou de expandir os negócios. Seu amor imenso pelos filhos e sua tremenda incapacidade de expressar esse amor. Seu medo da velhice, suas preocupações em relação à aposentadoria.
Sua insegurança em relação ao seu real talento, às chances de sobrevivência de suas competências nesse mundo que troca de regras a cada seis meses. Seu receio de que sua mulher, de cuja afeição você depende mais do que imagina, um dia lhe deixe. Ou pior: que permaneça com você infeliz, tendo deixado de amá-lo. Seus sonhos de trocar de casa, sua torcida para que seu time faça uma boa temporada, o tesão que você sente pela ascensorista com ar triste. Suas noites de insônia, essa sinusite que você está desenvolvendo, suas saudades do cigarro. Os planos de voltar à academia, a grande contabilidade (nem sempre com saldo positivo) dos amores e dos ódios que você angariou e destilou pela vida, as dezenas de pequenos problemas cotidianos que você tinha anotado na agenda para resolver assim que tivesse tempo. Bastou um segundo para que tudo isso fosse desligado. Para que todo esse universo pessoal que tantas vezes lhe pesou toneladas tenha se apagado. Como uma lâmpada que acaba e não volta a acender mais. Fim.
Então, aproveite bem o seu dia. Extraia dele todos os bons sentimentos possíveis. Não deixe nada para depois. Diga o que tem para dizer. Demonstre. Seja você mesmo. Não guarde lixo dentro de casa. Não cultive amarguras e sofrimentos. Prefira o sorriso. Dê risada de tudo, de si mesmo. Não adie alegrias nem contentamentos nem sabores bons. Seja feliz. Hoje. Amanhã é uma ilusão. Ontem é uma lembrança. No fundo, só existe o hoje.
Por Adriano Silva | Revista Exame
Completo idiota
14/06/2009 às 11h40
Outro dia estávamos, eu e Keity, no Rio de Janeiro sem fazer... (quase) nada.
Aí fomos zanzar no Rio Design Barra, atrás de umas besteirinhas que faltavam para o enxoval da nossa Valentina...
Foi quando deu vontade, em nós “três”, de irmos ao cinema.
E fomos.
“O Exterminador” qualquer coisa, o nome do filme.
Aí...
Bem, já havia decidido, há muito tempo, que sobre minha vida...
Não quero notícias ruins.
Nem energias meio assim.
Mas fui um completo idiota em sair, da minha redoma de felicidade, para assistir ao filme.
Um caos, mortes, os Estados Unidos sob o fim dos mundos.
Que capacidade, dos Estados Unidos em se destruir!
O filme é um emaranhado de mortes, sangue e destruições. Só isso.
Uma bobagem atrás da outra. Só isso.
Fiz outra jura: jamais esses filmes em meus caminhos.
Quero a vida brotando, nascendo, sorrindo, de toda cor.
Nada de morte, gente fraca, desamor.
Quando a gente assiste a um filme assim, fica, sei lá, remoendo sentimentos ruins: medos, piedades, o mundo fim.
Preste atenção quando você diz “amor” – o eco dessa palavra a sua volta atrai, claro, boas energias.
Mas se você fala “ódio” é a energia dessa palavra que paira sobre você.
Com os filmes, as pessoas, as palavras: nesse mundo de meus Deus, tudo vibra.
Para o bem, para o não tão bom assim.
Exterminar? Ah... só a inveja, a falta de caridade no coração alheio, as guerras, a violência, a injustiça social...
O resto a gente ri.
E é feliz.
E, convenhamos, ser feliz é muito melhor!
Outro sangue
31/05/2009 às 00h01
Estava voltando da casa de amigos, os queridos pais de Carla Cantídio, hoje à noite, com meu amor reclamando do barrigão que doía um tantinho... quando vimos a cena.
Um casal, morto de apaixonado, numa moto, acredito eu – até pelas circunstâncias – a caminho de casa, na Avenida Afonso Pena, no Tirol.
Ele vestia um macacão branco.
Cheio de sangue.
Era açougueiro, certamente.
Ela um jeans, essas blusinhas da moda cheia de brilhos e rosáceos, um casaco amarelo.
E como se acariciavam!
Cada sinal que vermelho ficava, o verde se abria em beijos, amassos – e eu achei liiiiiiiiiiiiindo, aquele casal.
Tão sujo, ele.
Tão apaixonados, os dois.
Fiquei pensando no tal amor.
Que pode tudo.
Que em tudo crê.
Que tudo vence.
Quem pensem, ou não pensem.
O casal, que se desdobrava em amor... estava, àquele momento, distante de tudo, de todos, nem aí para o mundo. Como tem que ser o amor, aliás.
Pararam numa lanchonete – ah, quem se importa com quem vai olhar, se absurdar!
São pessoas decentes, que trabalham? Então que se dane o olhar que discrimina o outro.
Vale o amor.
Mesmo que seja entre um açougueiro, podre de sujo, voltando do trabalho...
E uma jovem apaixonada, toda colorida.
Limpinha, feliz, carinhos de amor.
E eu, bobo que só, jamais vou esquecer daqueles dois.
Nem do amor que vi ali, sobre uma moto, numa noite fria do Natal...
Dona inveja, minha amiga
24/05/2009 às 23h55
Sempre tive uma boa relação com a inveja.
Sempre tão íntima, tão próxima a mim, fiz da inveja a minha aliada.
Diferente do que muita gente diz: a inveja, ah, é minha amiga!
E não tenho nenhum pudor em confessar.
Talvez nosso primeiro encontro tenha sido quando eu... ah, tenho “ódio” desse assunto... fui eleito Bebê Johnson, com um ano de idade.
Sim: minha mãe fez com que eu pagasse esse mico, pode?
Fato é que venci.
E... uma mãe, de um dos participantes, se revoltou.
“Esse menino não poderia vencer nunca. Ele é um cabeção!” – minha mãe respondeu assim... “É para guardar as inteligências, que serão muitas, que o farão diferente”.
Nascia, aí, minha boa relação com a inveja.
Que vinha truculenta. E era recebida com amor. E ternura.
Aí...
Na escola, no Rio de Janeiro, até chegar ao Colégio de Belas Artes fui, sempre, líder de classe.
E namorei as mais lindas meninas... Hoje, amigas queridas... casadas, bem casadas, com dois filhos que... se chamam Chrystian. E, claro, sou muito amigo dos seus maridos.
E fiz as festas de aniversário mais animadas e criativas – é, àquela época já me exibia um bocado.
E sempre fui amigo dos melhores amigos...
E, fazer o quê?, construí minha vida sobre alguns alicerces – e felicidade, bom humor e abuso, assim juntos, foram alguns deles.
E... a solidariedade, que é minha prece diária, também.
Tem inveja que possa com tudo isso?
Cheguei à faculdade e... uma turminha que era doida para espalhar intrigas... simples assim: não a via.
Não gosto nem nunca gostei de gente pela metade.
Gente pela metade, pra mim, é gentinha...
Aliás, tenho outros lemas: não vejo, não leio, não ouço nada do que não me faça melhor, mais inteligente, especial.
E se por um acaso, por exemplo, existir alguém que adora falar de a, b ou c, escrever algo meio assim sobre Chrystian de Saboya: é perder tempo. Não leio.
E tem outra: não admito que ninguém chegue me contando. Simples: não ouço.
Não gosto de notícia ruim, nem notícia má.
Ah, tem inveja que possa assim?
Ouvidos foram feitos para uma boa música, para ouvir uma bela história de amor.
Os acostumei assim e eles não ouvem nada que não tragam boas novas.
Lembro-me de que, por exemplo, na faculdade, meu carro, um Mégane, à época, havia sido arrombado duas vezes na frente da instituição.
Antes que acontecesse a terceira vez, pedi autorização, ao reitor, para estacionar, quando vaga tivesse, dentro da faculdade.
Foi um sem fim de reclamações.
As pessoas não chegavam para brigar por seus direitos.
Brigavam pelo meu direito conquistado.
Meu carro continuou, até o último ano, dentro do estacionamento.
Não respondia, não ouvia... Pronto: e a inveja do outro se tornava minha aliada.
Aliada de pernas quebradas, a bem da verdade.
Com as festas que realizo – e que, sem modéstia, são as melhores, as mais felizes, as mais produzidas – outras invejas surgiram.
Na época em que me inspirei em Cazuza para desenhar a noite “Exagerado”, fui “denunciado” por duas pessoas do Natal – aliás, bem conhecidas.
Foi preciso uma carta, assinada por um padre, para mostrar que a festa, àquela época, construía casas para quem não tinha onde morar. E que eu não estava usando a imagem de ninguém...
Só estava homenageando meu ídolo, e nada mais.
Mas agi com toda tranqüilidade do mundo - até porque, não faço nada errado.
E Exagerado foi um sucesso!
Aliás, o meu primeiro grande e estrondoso sucesso!
As pessoas que mandaram – uma um convite, outra uma carta anônima, seguiram pela vida, postas à piedade.
Eu... rindo com a vida, agregando gente boa ao meu redor, fazendo o bem.
E toda festa que faço sinto seu peso, à minha vista.
Mas a encaro de frente – e no lugar de fazer disso um problema, tiro proveito, trago para meu lado e... dou umas boas risadas.
O problema da inveja é com quem sente - não com a "vítima".
O caminho da inveja é desejar o que o outro tem de melhor. Então, vê que louco... não é inveja!
É admiração!!!!!!!!!!!!!
Não é o máximo, pensar assim?
Quando resolvi colocar esse site... recebia, sempre, uns e-mails anônimos de uma pessoa que estudava comigo àquele tempo.
E-mails grosseiros, ingratos e malfazejos.
Até o dia que, com a Maxmeio, resolvemos rastrear certas agressões: e tudo foi descoberto. E as máscaras da inveja...
Eu segui feliz, realizado.
Agora...
Tadinhos...
Fato é que a inveja não me pega.
Nem prega.
Nem nega.
Nem nada não.
Não a sinto, nem a quero no meu coração – mas lhe dou as mãos sempre que preciso for.
E a transformo numa aliada para o meu – fazer o que? – sucesso.
Nunca se importe com a inveja, quero dizer, com tudo isso.
Confie na sua capacidade, siga em frente.
E até se você for varrer uma rua, seja o melhor varredor do mundo.
Os bons de verdade, a inveja não derruba.
Não ligue, não ouça, não veja.
Nós, na vida, só vemos aquilo que queremos.
Cabeça erguida, coração valente e nas mãos uma flor.
Ah, tem inveja que possa com o amor?
Tem?
Chegando a hora
17/05/2009 às 10h07
Nossa vida já mudou – e ela ainda nem veio...
Mudou quase tudo.
O racional, o emocional, o espaço da gente.
Colocamos nosso apartamento abaixo. Mudamos piso, subimos parede, derrubamos chãos, revestimos, pintamos – e, claro, um novo quarto para Valentina.
As prioridades, de uns meses para cá, são outras também.
A melhor TV, o lustre mais lindo – tudo só para Valentina.
Interessante, agora, essas descobertas.
E, quem diria, eu sonhando com mamadeira, pente, cueiros, berços, escovinhas...
Outro dia sonhei que ela estava na cama, conosco. Acordei com uma dor horrível nas costas. E percebi que passei a noite duro, na cama, com medo de me mexer e... bater em Valentina.
E eu, que sempre gostei de Casa Vogue, agora me vejo debruçado sobre quartinhos de bebês.
Resolvemos fazer tudo branco. Compramos o enxoval no Rio de Janeiro e me inspirei nas nossas duas poodles, Terezinha e Maria do Socorro, para o quarto de Valentina. Todo branco, as duas meninas pretinhas, tons de rosáceos bem secos aqui e acolá.
E ficou liiiiiiiiiiiiiiiiiindo. E já tem o cheirinho dela, da menina linda que Deus vai nos mandar de presente.
E por ela, mudou tudo, realmente.
E ela nem veio, ainda.
Meu amor com uma barriga enorme, tranqüila, a espera da vida.
Estranhos sentimentos chegam junto.
Não sei se mais sensível com o mundo – sensibilidade sempre foi um caminho muito meu – mas estou mudando, dia a dia.
Ver Keity com aquela barriga linda, sempre tão tranqüila, tão mansa... tão meu amor...
E nós dois, juntos e apaixonados faz 19 anos, a espera de mais amor.
Ainda cabe.
E queremos mais dois, pós Valentina.
Sentir tudo isso é uma maravilha!
(Mais) um presente de Deus, sempre tão querido conosco.
O amor é Azulzinho
14/05/2009 às 23h27
Estava a caminho de uma reunião na TP Publicidade, hoje à tarde, quando o telefone tocou.
Angustiado, o fotógrafo Canindé Soares, que além de excelente profissional tem uma alma boníssima, pedia socorro.
Para um cachorro, poddle com as minhas Terezinha e Maria do Socorro, com uma carinha triste por demais e o corpinho franzino.
Canindé havia o encontrado àquela hora, coisa de 17h, no Tirol.
Seus donos, sem nenhum amor no coração, teriam "jogado fora” o pobre cachorro. Assim, como se um lixo fosse.
Dei meia volta.
E fui à procura do cãozinho.
Na rua, vizinhos me contaram o que aconteceu.
“Seus donos não querem mais ele. Ele está muito doente”.
“Jogaram o cachorro fora quando ele mais precisava de cuidados e de amor”.
“Que ser humano é esse?”...
Por que?, como tiveram coragem e que atitude tão desumana foi essa, não me interessa.
Num mundo onde se esquarteja crianças tadinhas, onde se mata pai, mãe e filhos – o que dizer, que sentimento chorar?
O que queria era resolver a situação daquele cão – a margem da vida, graças aos seus donos inacreditáveis.
Uma cara tristíssima, coberto acho eu por dor e... iodo.
O chamei de todas as formas. Ele não veio.
Queria latir, não tinha forças. Nem ânimo.
Era um latido gélido, inaudível, de dor.
Na esperança de seus donos abrirem o portão, não saia de frente da casa, chorando um choro contido, desses que a alma, apenas, ouve.
Ah, meu Deus! Mais um cachorro abandonado na minha vida!, pensei...
E briguei com Deus!
"Mas homem, eu tão ocupado! Lá vem o Senhor colocando chafurdo na minha porta... É sempre assim. E lá vou eu! O Senhor fica aí no céu, no bem bom, eu correndo como um louco!"
E rezei um Pai Nosso, acho que para me redimir.
E lá fui eu para tentar novamente. E mais uma vez.
Até que decidi ir até a minha clínica veterinária, a caça do anjo Alexandre.
No Centro Veterinário São Francisco de Assis, seu Antônio, fidelíssimo escudeiro dos anjos Diógenes e Joana Darc, se prontificou a me ajudar.
Sem forças, “Azulzinho”, será esse seu nome, se rendeu ao meu amor.
Como converso com bichos como converso com gente – e olho nos olhos, como olho nos olhos de gente... ele de cara resolveu se apaixonar por mim.
E fomos os três: Azulzinho, seu Antônio e eu.
Na São Francisco de Assis, Joana o consultou.
Cheio de feridas, com uma infinidade de carrapatos e muito machucado, Azulzinho estava, desde a manhã, no meio da rua. Perdido, desorientado, sem rumo, sem prumo.
Não comeu nada, não bebeu água, não encontrou amor até se deparar com o olhar de Canindé Soares.
A uma hora dessas, dorme feliz – sem entender o que lhe acontece, certamente que não.
Tomou banho, foi tosado, fez exames e... comeu muito.
Agora dorme o sono dos justos. Daqueles que nada fazem para se deparar com a crueldade do ser humano. E encontram , o que é uma pena.
Sonha com dias melhores, certamente.
Sonha com o dia em que a humanidade terá a hombridade de respeitar os animais.
Seus donos? Não me interessam. Nem os seis, nem nada não.
Torço para que, na próxima encarnação, venham como cachorros.
E que Canindé Soares um dia os encontre na rua.
E me telefone.
Foto: Canindé Soares
Assumidamente careta
28/04/2009 às 12h00
Se tem uma coisa que acaba comigo é a tal separação...
Hoje soube de três.
Assim, de uma tacada só.
Sempre sonhei com o arquétipo do “amor eterno” e quando histórias de rupturas, sem pudor algum caem a minha frente, caio junto.
Sinto junto.
Amor tem que ser para sempre sim.
Amor tem que ter exagero sim.
E a tal cumplicidade, respeito sem fim, cumplicidade até sempre.
A modernidade deve ter destruído tudo isso.
Hoje se conhece agora e... cama.
E no dia seguinte, para que suspiros e encantamento?
Para que esperar um telefonema, uma mão que passa e treme, o coração em disparada?
Para que?
Não existe necessidade...
A necessidade é urgente, latente, como se fossemos bichos. E somos, insanos.
O amor foi se esvaziando ao longo da vida.
Foi-se indo.
Namorar, casar, separar: tudo tão rápido, feito uma estrela cadente, decadente sobre vidas e corações do mundo.
É o que se vê, por exemplo, entre artistas. Se casa e se separa com uma rapidez exagerada, um modelo a não ser seguido.
Não só uma plantinha precisa de tempo.
O coração, o corpo da gente, carece disso também: de tempo.
Atropelar sentimentos pelo tesão é atropelar a vida. E a vida, sem tempo, se perde no meio do caminho.
Sei lá se é por isso que tantos casais se separam...
Mas fato é que as pessoa precisa de tempo. E esperar...
E pensar...
E esperar...
Claro que me refiro aos casais da modernidade: que brigam por uma besteira e encerram histórias de amor que talvez fossem se desenhar, ao longo da vida, belíssimas...
Separar tão rápido pra que?
Calma, minha gente – coração, acreditem, também curte sonhar.
E fazer nada também.
Coração, mesmo batendo... acreditem, também para...
E ainda abrem um sorrisão
22/04/2009 às 12h41
Tenho andado muito em hospitais de uns meses para cá.
Eu, Keity e Valentina.
Aliás, o que vou contar aqui sempre me foi muito íntimo, muito cúmplice.
A pobreza sempre esteve mão na mão comigo porque, graças a Deus, solidariedade é uma bandeira minha, faz tempo.
Mas agora é na minha pele, na pele do meu primeiro filho.
Keity, que é saudável e tem uma vida mansa, tem feito muitos exames.
Disso, daquilo, daquilo outro.
Toda santa semana um médico, para respirarmos aliviados sobre a chegada sã, de uma filha tão sonhada.
Ontem, voltando do laboratório, eu, Keity e Valentina pensamos juntos nas pobres pessoas desses Brasis.
O Brasil do diminutivo, de escândalos vergonhosos da classe política, uma gente paupérrima sim: mas de alma.
Enquanto se mata Celso Daniel e não se descobre porque não quer...
Enquanto se afoga calouros em universidades...
Enquanto se arrasta criança pelo pescoço...
Enquanto tiroteio vira cena comum em Cidade Maravilhosa...
Enquanto se paga mensalões...
Mensalinhos...
E passagens aéreas viram uma vergonha nacional...
No Brasil falta respeito à saúde da sua gente.
Hospitais decentes, gente tratada com vergonha, com cidadania, com respeito, pelo menos.
Um povo tão pobre, políticos tão ricos.
Como fazem essas pobres grávidas que passam fome?
E quem precisa de uma ambulância, um curativo, uma cirurgia dessas que atravessa a alma?
Como vivem os pobres desse Brasil?
À deriva, todos nós sabemos.
A história de uma grande mulher
11/04/2009 às 00h01
O Museu de Dona Beja: mesmo com ausência de história o local emociona
Fonte da Jumenta, onde Beja banhava-se: virou atração de um hotel
Primeira casa de Beja, de onde foi sequestrada: hoje um hotel. Cadê a história?
A Flor do Beijo, que deu nome a feiticeira dos Araxás
O museu Dona Beja: nada é dela. Tudo cenário
Era tão menino que nem me lembro.
Aliás, minha memória é péssima. Quase ínfima, quase um traço. Esqueço tudo.
Mas era tão moleque que minha mãe, por exemplo, fazia cara feia quando eu grudava na Rede Manchete e assistia a Dona Beja, novela de grande sucesso na emissora, lá por 1986.
Cheguei a Beja – ah, o amor permite certas intimidades! – pelos braços de uma das maiores amigas da minha vida: Lib Maurey, uma carioca nascida em Araguari, nas Minas Gerais, tataraneta da Beja dos Araxás.
Lib sempre me contou histórias lindíssimas sobre Beja.
Mais tarde li Agripa Vasconcelos, um autor mineiro de extrema importância no cenário literato do Brasil dos 1900. Debrucei-me ainda moço sobre a obra de Agripa Vasconcelos, para mim, um dos maiores romancistas brasileiros. Foi ele, com Machado de Assis, que me fez um apaixonado pela literatura destes Brasis.
Beja – assim mesmo, sem o “i”, nasceu em Formiga, uma cidadezinha muito pequenina, no Norte dos Gerais, em 1800, pelo nome de Ana Jacinta de São José e mudou-se aos 15 anos para Araxá, linda cidade a 377 quilômetros de Belo Horizonte.
Amada de Antônio Sampaio, homem de família conservadora e tradicional de Araxá, Beja teve uma vida trágica e surpreendente.
Foi vítima do desejo de Mota, ouvidor da Coroa Portuguesa, em visita a Araxá.
Depois de presenciar a morte do seu avô, Beja é raptada e levada para a vila de Paracatu, onde o ouvidor morava em um casarão imenso, cheio de luxo para a época.
Lá, foi estuprada e teve a vida encerrada de sonhos e paisagens dos amanhãs.
Para vingar-se do seu algoz, Beja servia aos homens que a desejam em troca de jóias e ouro todas as vezes que o ouvidor estava ausente da, antes de Beja, pacata cidade.
Chamado pelo imperador a instalar-se na Corte, Mota abandona Beja, que a essa altura já era uma jovem mulher dona de uma grande fortuna.
Ela parte de volta para Araxá para encontrar sua grande paixão, Antônio.
Que, decepcionado, já não a esperava mais.
Sem compreender as atitudes de Beja, Antônio casa-se com Aninha, moça frágil e delicada que sempre o amou. Com a recusa de Antônio, Beja promete não amar a nenhum outro homem e funda a Chácara do Jatobá, um bordel refinado onde ela se transforma num mito como cortesã, escandalizando todas as famílias conservadoras de Araxá.
A chácara prospera, Beja se torna poderosa, envolve-se com João Carneiro, mas não consegue se desligar de Antônio, o homem de sua vida. Até que uma tragédia acontece.
Antônio manda-lhe dar uma surra. Beja, ao descobrir, manda matá-lo.
Por influência dela, Mota determinou a devolução para Minas Gerais das terras do Triângulo Mineiro, que tinham sido transferidas para a capitania de Goiás.
Foi em busca dessa história que cheguei em Araxá.
Lindo chão, cidade encantadora.
Mas que muito deve a Dona Beja.
Lá, o único museu que leva o nome da mulher que escandalizou um mundo medíocre do século XIX, na, então, preconceituosa Minas Gerais de 1800 e tantos, não tem lá tantas deferências assim.
O Museu Dona Beja, que abriga sobre cacos de madeira e atrativos quase inexistentes a história da cidade, nada tem sobre Beja.
Dizem, uma corrente dela. E uma balancinha onde, dizem também, Beja pesaria seu ouro...
E nada mais. Nada.
A cidade, que ficou conhecida aos olhos do mundo graças à história de Beja, muito deve a rainha dos Araxás.
E isso doeu. Profunda, verdadeiramente.
A prefeitura tem, sim, que dar um jeito.
Reconstruir a história, resgatar o mito, abraçar a mulher que levou Araxá para o coração de tantos.
Que se encontre a família, que se resgatem objetos. Que o museu de Dona Beja seja realmente dela. Somente dela.
Araxá tem essa dívida.
Mas amo Araxá, mesmo assim!
Fotos: Arquivo Pessoal
A noção que o ser humano perdeu
08/04/2009 às 15h43
Dois motivos acabaram com meu coração vagabundo hoje.
Um... a prisão do noivo de uma moça de Mossoró, por possível envolvimento com as drogas, no Ceará.
O outro... a prisão do noivo de uma moça de Mossoró, por possível envolvimento com as drogas, no Ceará.
O primeiro lamento profunda, verdadeiramente. Lamento com a alma sangrando – até porque os dois, acusado e jornalista estavam de casamento marcado para maio.
E... a droga é um caminho avesso a Deus, perto do fim, destruidor de almas...
Palmas, claro e sempre, para a polícia, que luta sem trégua contra esa dor.
E, acreditem: desde a hora que soube, só rezo.
E rezo, e rezo...
Mas tão lamentável quanto... é outra droga que inferniza a pobre humanidade: a fofoca.
Desde as primeiras horas da manhã eu soube do fato, através de um jornal de Roraima, onde tenho amigos e comentaram comigo.
Coração partido, fiquei quieto.
Não disse nada a ninguém até o primeiro telefonema, às dez da manhã.
E um atrás do outro – e um mais sarcástico do que o outro.
Mais inacreditável do que o outro.
- Soube da bomba?
- Será?
- Será?
- Será?
Meu Deus, quanta gente sem noção nessa vida!
Nem a Páscoa se respeita mais!
Primeiro: como é que pode existir um ser humano que pega um telefone para espalhar esse tipo de notícia – ou notícia ruim, qualquer uma que seja?
Como pode existir alguém que passe e-mails assim: “rindo” da dor alheia????
Chega a soar como mentira para meus ouvidos.
Se tem uma coisa que não suporto é gente que ri de gente.
É gente que se felicita com a desgraça alheia.
De gente que, agindo assim, é gente pela metade. Ou é quase nada.
E gente pela metade, gente má, gente que se diverte com a dor do outro é, para mim, um traficante também.
Mas de energias ruins.
Sem saber que a vida gira.
E que a próxima vítima pode ser a droga da sua vida.
Esse texto eu dedico a... Um ser doce, querido, do bem. Uma pessoa que luta para ser feliz, uma alma boa.
Não precisa dizer nomes... basta pedir a Deus que escute as suas, as nossas preces.
E que tudo dê certo.
Dará.
O Nariz de Valentina
30/03/2009 às 19h59
Estou vivendo, de verdade, a melhor época da minha vida.
Acabamos de chegar, eu, Keity e Valentina, de uma ultra-sonografia morfológica, para saber se estava tudo bem com o nosso bebê.
Está! Aliás, melhor, impossível.
Valentina tem todas as medidas normais, está um bolo fofo de gordinha, com saúde para dar e vender e...
Tem um nariz igual ao meu.
Ou seja: a menina já é um abuso!
- Emílio, homi, que nariz exibido é esse?
- Ah, Chrystian! É o seu nariz todinho! Quer dizer... hum... o dela parece ser mais empinado!!!
- Verdade?!
Fiquei me achando, claro!
Na ante sala, antes de fazer o exame com Emílio Hipólito, referência no Estado quando o assunto é mergulhar no útero da mulher - uma sumidade, realmente, encontrei com um pai.
E ri dele, vê que bobo.
É que o pai estava com um sorriso tão grande, mas tão grande - que eu ri. Muito.
Achei lindo. E engraçado, aquele riso todo.
Ele vinha do consultório do Emílio, e espera do DVD que trazia a história do seu filho e da sua mulher, com um barrigão imenso...
Mas ria muito.
Aí entramos.
E Hemílio passa álcool, tira álcool, vê tudo, bisbilhota tudo e... "Meus amigos, está tudo ótimo!".
Eu quase morro de felicidade.
E, claro, fiquei com o bocão aberto igual aquele pai que acabava de encontrar na ante sala.
Quer dizer...
Meu sorriso era maior.
Bobo, eu, né?
Quanto custa adoçar a alma?
25/03/2009 às 13h18
Numa boa, resolvi, com a vida bem mansa hoje, ir para praia. Ponta Negra, “Posto 7”, é meu pouso. Ali, perto do Manary, onde sempre aproveito para tomar sucos ótimos, um açaí divino e...
E eu vi uma senhora.
Negra da vida, negra do tórrido sol.
Estava vendendo cocadas. De toda cor. Usava uma roupa branquinha, aquilo, presumi eu, que um dia foi um traje de baiana.
Magrinha, carregava um tabuleiro pesado, imenso, cheio, vê que paradigma, de açúcar.
E de um em um pedia para comprar “as mais gostosinhas cocadas da praia”.
Ela tinha razão. Gostosinhas, vírgula: maravilhosas!
Dona Josefa de Jesus Oliveira tem 74 anos de idade. Teve, pela vida de meu Deus, 8 filhos.
Hoje cuida de um, especial – e de 6 netos. Sim, seis netos vivem sobre seus cuidados.
O marido “sumiu no mundo, faz tanto tempo que nem me alembro”.
Velhinha, dona Josefa, que teria mesmo que ter o nome de Jesus entre os seus, deveria estar em casa, fazendo crochê, vendo televisão, cochilando, botando nada para sua frente para cuidar.
Mas não: trabalha madrugada todinha. Só descansa terça, por que terça “é meu dia sagrado”.
E quando a madrugada vai, dorme um tanto. E acorda logo, vai para praia espalhar doçura, num ônibus que a leva de Mãe Luiza, onde mora faz “toda vida”.
- Meu filho, você pergunta muito”, disse, doce feito suas cocadinhas...
Ah, como amei ter conhecido, nesse dia de sol lindo, dona Josefa!!!
Percebi, através das mãos esquálidas daquela senhora, que é, claro, possível adoçar a nossa vida com muito pouco.
Eu hoje adocei ainda mais a minha com um real, uma cocada bárbara e a história de uma velhinha linda, encantadora, mágica.
Ah, vida boa e barata, essa!!!