A transformação digital revolucionou a medicina nas últimas décadas, mas trouxe consigo um desafio inesperado: o tempo cada vez maior que os profissionais de saúde dedicam às telas. Para o endocrinologista e metabologista Ramon Marcelino, doutor pela Endocrinologia do Hospital das Clínicas da FMUSP e cofundador da ArchAImeds, o próximo grande avanço da inteligência artificial na saúde não é substituir médicos, mas ajudá-los a recuperar o tempo dedicado aos pacientes.
Criado para organizar informações e facilitar a continuidade do cuidado, o prontuário eletrônico acabou se tornando um dos principais concorrentes da atenção direta ao paciente durante as consultas. Dados de um estudo realizado nos Estados Unidos, com cerca de 100 milhões de atendimentos ambulatoriais e 155 mil médicos, mostram que aproximadamente um terço do tempo gasto nos sistemas eletrônicos é dedicado à revisão de prontuários, enquanto outro quarto é consumido pela documentação.
Segundo Ramon Marcelino, esse cenário afeta não apenas a produtividade, mas também a qualidade da relação médico-paciente. Quanto mais tempo o profissional dedica ao preenchimento e à revisão de registros, menor tende a ser o tempo disponível para escuta, observação e diálogo durante a consulta.
Nesse contexto, a inteligência artificial surge como uma aliada promissora. Para o especialista, o uso mais eficiente da tecnologia está em reduzir tarefas operacionais e apoiar o raciocínio clínico, sem substituir a tomada de decisão humana. Ferramentas capazes de organizar informações em tempo real e apontar dados relevantes podem tornar os atendimentos mais completos e eficientes.
A visão é reforçada pela Resolução CFM nº 2.454/2026, que reconhece a IA como ferramenta de apoio à prática médica, preservando a responsabilidade do profissional sobre as decisões clínicas. “O objetivo não é criar uma medicina conduzida por algoritmos. É usar a tecnologia para reduzir o tempo que o médico dedica à interface e ampliar aquele que dedica ao paciente”, defende Ramon Marcelino.
Para o médico, o futuro da inteligência artificial na saúde passa pela criação de soluções que permitam ao prontuário eletrônico voltar à sua função original: registrar e organizar informações sem competir com o cuidado. Dessa forma, a tecnologia pode contribuir para uma medicina mais humana, eficiente e centrada nas pessoas.
Foto: Divulgação.
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